NASA suspende retorno de amostras de Marte; China avança em missão própria

Destaques
- •NASA revisa plano de retorno de amostras de Marte devido a custos e desafios técnicos.
- •China acelera sua missão Tianwen-3 com objetivo de trazer material marciano até 2031.
- •Retorno de amostras exige rigorosos protocolos de proteção planetária para evitar contaminação.
A NASA suspendeu a arquitetura original de sua missão Mars Sample Return, que visa trazer amostras coletadas pelo rover Perseverance em Marte para análise na Terra. A decisão, motivada por crescentes custos e dificuldades técnicas, adia o cronograma de retorno, que antes previa a entrega em 2033. A agência espacial americana agora avalia alternativas mais econômicas, incluindo propostas da iniciativa privada.
Enquanto a NASA reavalia seus planos, a China avança com sua missão Tianwen-3, com o objetivo de trazer material marciano à Terra até 2031. Se bem-sucedida, a Administração Espacial Nacional da China (CNSA) poderá ser a primeira a retornar amostras do Planeta Vermelho, utilizando tecnologias próprias.
Desafios de trazer amostras marcianas
A missão Mars Sample Return, uma parceria entre NASA e a Agência Espacial Europeia (ESA), enfrentava complexidades tecnológicas. O plano original previa que o rover Perseverance deixasse as amostras em tubos na superfície, para serem recolhidas por um módulo de pouso ou helicópteros. Um pequeno foguete lançaria uma cápsula com o material à órbita marciana, onde uma espaçonave europeia faria a captura e o transporte até a Terra.
A necessidade de trazer amostras para análises mais precisas na Terra é crucial para a busca por sinais de vida. No entanto, o processo envolve desafios tecnológicos significativos, custos elevados e a necessidade de seguir protocolos rigorosos para evitar a contaminação do material e proteger a biosfera terrestre.
Proteção planetária e riscos biológicos
A preocupação com o retorno de amostras vai além da possibilidade de encontrar vida. Cientistas precisam garantir que o material não seja contaminado durante o transporte e que sua chegada à Terra não represente riscos biológicos. A política de proteção planetária do Comitê de Pesquisas Espaciais (COSPAR) estabelece diretrizes internacionais para reduzir a contaminação entre a Terra e outros corpos celestes.
Existe a preocupação com a contaminação reversa, que seria a introdução de organismos ou agentes biológicos extraterrestres na Terra. Embora a existência de microrganismos marcianos capazes de causar efeitos na biosfera terrestre seja uma hipótese, não há comprovação de vida em Marte. O astrobiólogo Douglas Galante, da USP, considera muito baixo o risco de um eventual organismo marciano representar uma ameaça biológica à Terra, mas ressalta a necessidade de rigor científico para tratar possíveis consequências ecológicas.
É importante distinguir a presença de compostos orgânicos, que podem se formar por processos químicos, da existência de vida. A descoberta de moléculas orgânicas ou estruturas interessantes não comprova, por si só, que Marte abrigou seres vivos.
Protocolos de segurança e análise em laboratório
A segurança começa em Marte, com tubos lacrados para preservar as amostras. No retorno, elas seriam acondicionadas em recipientes adicionais com barreiras para impedir a liberação de partículas. A cápsula precisaria resistir à reentrada atmosférica e ao pouso, com o requisito original de limitar a probabilidade de liberação de material marciano na biosfera terrestre a menos de uma em um milhão.
Após a chegada, o material permaneceria isolado em uma instalação especializada. Laboratórios terrestres utilizariam instrumentos mais sofisticados para análises detalhadas, buscando esclarecer a história geológica do planeta e a presença de água. No entanto, a identificação de bioassinaturas exige a combinação de diferentes evidências, descartando contaminações terrestres e processos abióticos.
O Brasil também pode contribuir com estudos de ambientes terrestres extremos e com o laboratório Orion, em Campinas (SP), que operará com altos níveis de biossegurança e será conectado ao acelerador de partículas Sirius. A cooperação internacional será fundamental para o acesso de pesquisadores brasileiros a amostras extraterrestres.
Matérias originais
- Podemos trazer organismos desconhecidos de Marte para a Terra? · olhardigital.com.br
