Vida & SaúdeRelevância BR: 9/10

Mudanças climáticas expandem doenças infecciosas pelo Brasil

25 de outubro de 2026
Mudanças climáticas expandem doenças infecciosas pelo Brasil

Destaques

  • •Expansão da dengue para regiões antes protegidas pelo clima é irreversível, segundo estudo.
  • •Doenças como febre do Oropouche e fúngicas também se tornam mais prevalentes.
  • •Especialistas alertam para aumento de riscos após eventos climáticos extremos.

O Brasil, que historicamente registrava surtos de dengue em regiões mais quentes, agora enfrenta uma expansão sem precedentes da doença, inclusive em áreas antes consideradas protegidas pelo clima, como o Rio Grande do Sul. Em 2024, o estado registrou quase 210 mil infecções e 281 mortes, um reflexo direto das anomalias térmicas e da maior frequência de temperaturas fora do usual, conforme aponta um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A pesquisa revela que, entre 2006 e 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue mais do que dobrou, passando de 110 para 292, o que representa 54% do país.

Expansão irreversível da dengue

O estudo da Fiocruz indica que a expansão da área de transmissão da dengue é um processo irreversível. Uma vez que o vírus e o vetor, o mosquito Aedes aegypti, são introduzidos em uma região, é improvável que se retorne a um cenário de transmissão zero. O infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, corrobora essa visão, afirmando que o espalhamento da dengue é uma das maiores provas de como as mudanças climáticas incidem sobre as doenças infecciosas.

As anomalias térmicas, ou seja, o registro de temperaturas muito diferentes das habituais por um período, são o principal indicador climático que explica o aumento das taxas de incidência da dengue a longo prazo. O clima mais quente e úmido favorece todas as etapas da vida do mosquito, desde a resistência dos ovos até o aumento da necessidade de picadas em temperaturas elevadas, intensificando a transmissão da doença.

Outras doenças sob ameaça climática

A dengue não é a única doença afetada. A febre do Oropouche, que até 2023 circulava quase exclusivamente na Região Amazônica, causou mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal no ano passado. Embora a relação com o clima ainda esteja sendo investigada, acredita-se que mudanças nos padrões de temperatura e chuvas, aliadas à degradação ambiental, tenham contribuído para sua expansão.

Eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, que se tornam mais frequentes com as mudanças climáticas, também aumentam o risco de surtos. Após as chuvas no Rio Grande do Sul, houve um aumento significativo de leptospirose, transmitida pela urina de ratos e disseminada por enchentes. A água contaminada por esgoto e urina de animais representa um risco de contrair bactérias causadoras de problemas gastrointestinais e vírus como o da hepatite A.

Riscos de doenças fúngicas e zoonoses

As secas, por sua vez, trazem o perigo de incêndios florestais, que forçam animais a migrarem para áreas urbanas, aumentando o risco de zoonoses como o hantavírus. A cepa brasileira causa uma síndrome cardiopulmonar grave, com taxa de letalidade de 40%. Desde 2016, foram registradas 530 infecções e 212 mortes.

Outra ameaça emergente são as doenças fúngicas. A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), alerta que as mudanças climáticas estão levando fungos a se adaptarem a temperaturas mais altas, rompendo a barreira natural de proteção do corpo humano. A Candida auris, um fungo identificado pela primeira vez na década de 1990, sobrevive em altas temperaturas e resiste no ambiente, sendo particularmente perigosa para pacientes imunodeprimidos, com letalidade entre 40% e 60% em unidades hospitalares. O Brasil registrou 24 ocorrências desde 2020, com 56 mortes entre 146 pacientes colonizados.

O fungo Trichophyton indotineae, que causa problemas de pele, emergiu com resistência a antifúngicos. Além disso, fungos como o Aspergillus, que se desenvolvem em ambientes quentes e úmidos, têm avançado para novas regiões devido às alterações nos padrões de temperatura e umidade, impulsionadas pelas mudanças climáticas.

Receba as Melhores Notícias

Assine nossa newsletter e receba diariamente as notícias mais relevantes, sem viés político.

Edição matinal diária às 07:00 • 7 minutos de leitura • Gratuita.

Notícias Relacionadas