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Mercado reage com cautela à reeleição de Lula; foco em agenda fiscal

28 de outubro de 2026
Mercado reage com cautela à reeleição de Lula; foco em agenda fiscal

Destaques

  • •Mercado financeiro demonstra preocupação com a gestão fiscal do novo governo Lula.
  • •Escolha da equipe econômica e sinalizações de ajuste nas contas públicas são cruciais para a confiança.
  • •Cenário de juros altos e dólar volátil pode persistir, exigindo cautela dos investidores.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou incertezas no mercado financeiro, que aguarda com atenção as sinalizações sobre a condução da política fiscal e a composição da equipe econômica. Especialistas apontam que a questão fiscal continuará sendo um tema central, com o mercado exigindo uma agenda crível para impulsionar o dólar a patamares menores, a bolsa para cima e acomodar os juros futuros.

Carlos Pessoa, CEO da Vêneto Family Office, destacou que, diferentemente do início do governo anterior, o mercado não deverá conceder o benefício da dúvida desta vez. Ele avalia que a trajetória da dívida pública se descontrolou em algum momento e que o mercado aguarda atentamente os nomes que comporão o novo governo. Pessoa pontua que, se a equipe econômica seguir nomes como Rafael Fonteles, Gabriel Galípolo e Geraldo Alckmin, isso representaria continuidade em relação ao governo anterior, sinalizando um perfil menos ortodoxo que o esperado por alguns agentes.

Dúvidas sobre a equipe econômica e agenda fiscal

A economista Zeina Latif ressaltou que a reação dos mercados reflete a preocupação com a situação fiscal do país e a necessidade de o governo sinalizar um compromisso mais claro com o ajuste das contas públicas. Ela avalia que o quadro atual combina maior fragilidade fiscal com um ambiente político polarizado, o que dificulta a aprovação de reformas estruturais. Latif enfatiza que a escolha do ministro da Fazenda será decisiva para recuperar a credibilidade, mas que a simples nomeação de um nome técnico não será suficiente. O futuro ministro precisará de formação técnica, experiência administrativa e capacidade de influenciar as decisões internas do governo.

Segundo Latif, o governo Lula começa este novo período com um déficit de credibilidade, o que torna a sinalização de compromisso fiscal ainda mais importante. Ela compara a situação com a de 2019, quando o governo Bolsonaro poderia contar com o benefício da dúvida, enquanto Lula precisará demonstrar rapidamente disposição para enfrentar os desequilíbrios.

Juros altos e o impacto na economia

Carlos Pessoa avalia que o cenário base é de continuidade do governo atual, o que implica uma agenda fiscal mais gradativa do que o mercado idealizava. Ele prevê que a renda fixa, dado que os juros futuros não terão tanto espaço para se acomodar, ainda mais com o juro americano podendo ser um empecilho, continuará sendo uma alternativa relevante. O ambiente de CDI elevado e Selic alta tende a persistir, tornando a renda fixa e a dolarização alternativas importantes para os investidores.

Para quem estiver disposto a assumir riscos, Pessoa menciona a possibilidade de aproveitar ativos de qualidade que sofreram desvalorização, mas alerta para a necessidade de aceitar a volatilidade. Ele também adverte que os juros elevados tendem a ser especialmente prejudiciais para empresas de menor capitalização listadas no Ibovespa.

Zeina Latif acrescenta que a combinação de fragilidade fiscal, endividamento das famílias e empresas, e alta inadimplência pode limitar o espaço para a redução dos juros e agravar a desaceleração da atividade econômica. Ela lembra que os efeitos da política monetária demoram a chegar à economia e que o processo de redução das taxas pode ser comprometido caso as incertezas fiscais persistam.

O que esperar dos próximos passos

Fernando Dantas, colunista do Broadcast, sugere que Lula deve convergir ao centro em seu quarto mandato, como indicam as primeiras especulações sobre o novo ministério. No entanto, ele ressalta a imprevisibilidade do presidente e o risco de um caminho diferente ou de uma transição desastrada. Dantas aponta que a dificuldade política de obter o ajuste do resultado primário é maior hoje do que em 2003, e que a gastança eleitoreira e as promessas de mais gastos não ajudam. O ajuste fiscal estrutural em meio a uma desaceleração cíclica e de balanços da economia em 2027 será uma equação complicada.

A economista Zeina Latif também alerta que a rigidez das despesas públicas, que crescem de forma automática, é um desafio. Sem mudanças nessa dinâmica, o governo tende a enfrentar pressão recorrente para aumentar a carga tributária. Ela defende que o Ministério da Fazenda atue com maior ênfase no convencimento interno para evitar decisões incompatíveis com a sustentabilidade das contas públicas e que o presidente assuma o custo político do ajuste.

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