Estudo revela dificuldades em entrevistar elites políticas e sociais no Brasil

Destaques
- •Pesquisadores enfrentam barreiras como agendas lotadas e desconfiança ao tentar entrevistar políticos, diplomatas e empresários.
- •Acesso a informações relevantes é dificultado pela relutância de elites em participar de pesquisas, alterando o retrato produzido pelos levantamentos.
- •Estratégias como indicações por pessoas de confiança, respaldo institucional e abordagens diretas são usadas para superar obstáculos.
Entrevistar elites políticas e sociais no Brasil apresenta desafios significativos para pesquisadores, que se deparam com agendas disputadas, receio de exposição e desconfiança em relação às universidades. Essas barreiras dificultam a obtenção de informações relevantes que não constam em registros públicos, permanecendo nas entrelinhas das relações de poder. O estudo de elites, crucial para entender quem influencia decisões e onde ocorrem articulações, torna-se complexo quando os próprios detentores de poder se esquivam de responder a pesquisas.
Reginaldo Mattar Nasser, professor da PUC-SP, destaca que o estudo das elites permite ir além da ciência política institucional, alcançando a esfera concreta da decisão. No entanto, a dificuldade em obter respostas pode alterar o retrato produzido pelos levantamentos. Adriano Codato, professor da UFPR, aponta uma inversão de hierarquia: enquanto grupos vulneráveis veem a participação em pesquisa como reconhecimento, elites detêm mais poder na interação e decidem se concedem tempo ao pesquisador. Para políticos, o acesso é frequentemente controlado por assessores, e as respostas podem ser ensaiadas para administrar a imagem pública, com maior interesse em atender veículos de grande visibilidade do que institutos de pesquisa.
O projeto "Democracia no espelho"
Uma equipe do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) enfrentou esses obstáculos no projeto "Democracia no espelho". A pesquisa comparou a visão de 170 deputados federais (33,1% da Câmara) e 1.504 cidadãos sobre o que consideram essencial a uma democracia. Os questionários, aplicados pelo Ipsos-Ipec, abordaram garantias liberais, redução de desigualdades e participação direta.
Para alcançar os deputados, combinou-se agendamentos formais com abordagens diretas nos corredores do Congresso Nacional. Entrevistas foram gravadas e georreferenciadas para controle. A equipe precisou localizar perfis específicos para completar a amostra, que exigiu cotas por partido, unidade da federação, sexo e cor ou raça. A contratação de uma empresa especializada profissionalizou a abordagem.
Diferenças nas percepções sobre democracia
As respostas revelaram que, em princípios amplamente aceitos como igualdade perante a lei e liberdade de imprensa, as visões de deputados e cidadãos se aproximaram. Contudo, a distância aumentou em temas que exigem compromissos concretos com limites ao poder e responsabilização do governo.
A liberdade de oposição foi considerada de importância máxima por 10,2 pontos percentuais a mais entre os deputados do que entre os cidadãos. Em relação a eleições livres e justas, a diferença foi de 7,9 pontos. Por outro lado, a população demonstrou maior rigor com o poder governamental: 12,5 pontos percentuais a mais de cidadãos consideraram que os tribunais devem impedir ações ilegais do governo. A maior disparidade, de 32,2 pontos percentuais, ocorreu na ideia de que eleitores devem punir governos que atuam contra seus interesses, com mais cidadãos defendendo essa punição.
Diplomacia e outras elites
Em estudos sobre diplomatas, conduzidos por Karla Gobo, aposentados foram mais acessíveis que os ativos, que temiam retaliações. Um estudo posterior, com respaldo da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB), reuniu 597 diplomatas da ativa e mostrou 78% de insatisfação com o sistema de promoções do MRE, percentual que chegava a 83% entre mulheres e 84% entre pessoas negras. 92% discordaram da clareza dos critérios de promoção.
Pesquisas com secretários estaduais de segurança pública foram dificultadas pela natureza fechada das corporações policiais e desconfiança em relação a pesquisadores. No caso de militares, a abordagem em cadeia via contatos facilitou, mas o grupo respondeu menos. Para contornar a falta de retorno em pesquisas sobre elites diversas (política, econômica, militar, acadêmica e da mídia), pesquisadores recorreram a telefonemas e à contratação de auxiliares com experiência em cada perfil.
A pesquisa com elites exige estratégias adaptadas, como indicações por pessoas de confiança, uso de agentes internos, garantia de anonimato, respaldo institucional, envio de questionários com reforço telefônico, uso de redes acadêmicas, agendamento prévio ou abordagem direta. Mesmo com essas táticas, as ausências e os limites impostos pelas recusas devem ser considerados nas conclusões.
Matérias originais
- Como mapear a opinião de elites se elas não respondem a pesquisas? · revistapesquisa.fapesp.br



