Livro XXXV de Silviano Santiago, com projeto de Hélio Oiticica, é publicado 50 anos depois

Destaques
- •O livro XXXV, escrito por Silviano Santiago e com projeto gráfico de Hélio Oiticica, é finalmente publicado após mais de 50 anos de seu idealização.
- •A obra, que reúne o livro integral, divagações de Oiticica e o poema Über Coca de Freud, foi encontrada por acaso em um arquivo do escritor.
- •A publicação, que chega ao público pela editora da galeria Pinakotheke, é considerada por Santiago como o ápice de sua produção poética.
O livro XXXV, escrito pelo renomado escritor e ensaísta Silviano Santiago e com um projeto gráfico inovador do artista Hélio Oiticica, finalmente chega ao público mais de 50 anos após sua concepção. A obra, que estava perdida em meio a arquivos pessoais de Santiago, foi encontrada por acaso pelo jornalista João Pombo Barile, que pesquisava para a biografia do escritor. A publicação, realizada pela editora da galeria Pinakotheke, representa a realização de um desejo antigo de Santiago e a preservação de um importante marco na história da literatura e das artes visuais brasileiras.
A redescoberta do material perdido
A descoberta ocorreu no apartamento de Silviano Santiago, onde o jornalista João Pombo Barile pesquisava para a biografia "Presente do Acaso", com lançamento previsto para 2025. Em meio a caixas de documentos, Barile encontrou uma pasta contendo o protótipo do livro XXXV, instruções de Oiticica para Lygia Pape sobre o projeto gráfico, fotografias de Santiago jovem e um cartão assinado por Oiticica. Santiago, que acreditava ter perdido o material, guardou-o por décadas sem saber onde.
O material redescoberto inclui não apenas o livro em si, mas também um ensaio fotográfico em preto e branco de Santiago, um cartão assinado por Oiticica e as instruções detalhadas do artista para a execução do projeto gráfico, que seria realizado por Lygia Pape.
O contexto da criação e a amizade entre os artistas
Silviano Santiago escreveu XXXV em 1971, aos 35 anos, como uma reflexão sobre suas experiências de vida, utilizando os idiomas que domina (português, francês e inglês) e referências aos locais onde viveu. O título, em algarismos romanos, dialoga com a teoria da desconstrução de Jacques Derrida. O escritor apresentou o texto a Hélio Oiticica, que, inspirado pela obra, propôs um projeto gráfico inovador, utilizando recortes de fotografias de Santiago e compondo partes de seu rosto com o vazio da página, em uma solução que remete à série Metaesquemas do artista.
A amizade entre Santiago e Oiticica era marcada por profundos diálogos, especialmente sobre filosofia. Oiticica, ao presentear Santiago com o projeto gráfico em 1973, expressou em cartas a amigos como Carlos Vergara e Lygia Pape a importância que o livro teria para a consolidação de Santiago como poeta.
Os desafios da publicação e a realização do sonho
Após a criação do projeto, Silviano Santiago enfrentou dificuldades para publicar XXXV no Brasil. Diversas editoras consideraram o projeto gráfico caro e inviável. A dificuldade em concretizar a publicação gerou um sentimento de frustração no escritor, que via o livro como uma de suas obras mais importantes em poesia.
Com a publicação pela Pinakotheke, Santiago sente um grande alívio, descrevendo a sensação como "retirar uma pedra das costas". Ele acredita que, com 90 anos, a oportunidade de ver seu trabalho poético publicado com o projeto original de Oiticica é uma realização pessoal e um presente para o público.
A estrutura da obra e seu legado
A edição publicada pela Pinakotheke é composta por três partes. A primeira é o livro XXXV integral. A segunda parte é um anexo com a história do encontro do material, cartas e anotações de Oiticica sobre a publicação, organizado pela editora Camila Perlingeiro. A terceira parte inclui o manuscrito de Oiticica com o poema "Über Coca" e as instruções para a obra "CC8 (Cosmococa 8)", dedicada a Santiago.
Santiago vê em XXXV um prenúncio das tendências da poesia das décadas de 1970 e 1980, com poemas mais curtos, acessíveis, irônicos e despojados, antecipando uma nova linguagem poética que viria a se consolidar.



