Itacaré: Turistas israelenses e moradores em conflito na Bahia

Destaques
- •Moradores de Itacaré, na Bahia, denunciam turistas israelenses por racismo, violência e desrespeito.
- •Conflitos se intensificaram após ofensiva de Israel em Gaza, com incidentes em bares e protestos.
- •Deputado propõe impedir entrada de militares israelenses envolvidos em operações em Gaza.
A pacata cidade de Itacaré, no sul da Bahia, conhecida por suas belezas naturais e tranquilidade, tornou-se palco de intensos conflitos entre turistas israelenses e moradores locais desde 2026. A população denuncia comportamentos desrespeitosos, ofensas racistas, ataques violentos e tentativas de censura a manifestações de solidariedade ao povo palestino por parte de visitantes, em sua maioria jovens que acabaram de cumprir o serviço militar obrigatório em Israel.
Itacaré, que até o fim da década de 1990 era uma vila de pescadores isolada, viu seu turismo crescer exponencialmente com a pavimentação da estrada para Ilhéus. Atualmente, 95% da receita da cidade provém do turismo, com israelenses se tornando um dos grupos estrangeiros mais expressivos. A influência cultural se manifestou com a adaptação do comércio local, que passou a exibir bandeiras de Israel, cardápios em hebraico e a oferecer pratos típicos judaicos, além da instalação de uma sinagoga e um Beit Chabad.
Escalada de tensões e incidentes violentos
As relações deterioraram-se significativamente a partir de outubro de 2023, com a ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Moradores relatam que soldados israelenses, ao visitarem Itacaré para um período sabático, adotam uma postura hostil e agressiva, desrespeitando a população local. Mariá Veiga, coordenadora da Frente Palestina do Sul da Bahia, descreveu a situação: "Quando eles chegam a Itacaré, eles continuam achando que estão dentro de um campo de guerra".
Relatos frequentes descrevem jovens israelenses, muitas vezes alcoolizados, cometendo vandalismo, proferindo ofensas racistas como "macaco" e "escravo", maltratando funcionários e recusando-se a pagar taxas de serviço. A tensão atingiu um ponto crítico em 3 de março de 2026, quando um jovem negro, Cirilo, foi expulso de um bar a pedido de turistas israelenses. Quatro dias depois, em 7 de março, um grupo de israelenses foi repreendido por quebrar vasos de plantas na rua principal. Uma moradora que reclamou foi agredida, e outra que filmava a cena teve o celular arremessado contra o rosto, resultando em nariz quebrado e seis pontos, com os agressores imitando sons de macaco.
Protestos e repressão policial
Os ataques levaram à organização de protestos contra o turismo predatório. Em 14 de março, a Frente Palestina do Sul da Bahia realizou um ato na Praça da Pituba, com participação de políticos e ativistas, criticando comportamentos racistas e associando o turismo israelense ao conflito em Gaza. Durante o protesto, um grupo de israelenses invadiu o local e agrediu manifestantes, o que levou à intervenção da Polícia Militar com gás lacrimogêneo. Três turistas israelenses foram detidos por desacato, mas liberados.
Um conflito mais recente ocorreu em 30 de outubro, durante a Festa Literária de Itacaré. Uma intervenção artística coletiva no Casarão Azul, com mensagens de valorização da cultura brasileira e solidariedade à Palestina, foi vandalizada por um grupo de sete turistas israelenses. Moradores intervieram, afastando os visitantes. O proprietário do imóvel solicitou a retirada do mural após a repercussão.
Autoridades e próximos passos
Apesar da escalada dos conflitos, as autoridades de Itacaré, incluindo o prefeito Edson Arantes Santos Mendes (PT), têm optado por uma postura de neutralidade, focando na manutenção do fluxo turístico e repetindo discursos institucionais sobre respeito à diversidade. Vereadores também demonstram maior preocupação com o impacto econômico do que com a garantia dos direitos dos moradores.
Conflitos similares têm sido registrados em outras localidades do litoral baiano. O deputado Hilton Coelho (PSOL) apresentou na Assembleia Legislativa da Bahia uma proposta para que o governo federal impeça a entrada de militares israelenses envolvidos em operações em Gaza e no Líbano, com base na Lei de Migração, que permite barrar estrangeiros envolvidos em crimes de guerra e violações de direitos humanos.
Matérias originais
- Quem manda em Itacaré? Moradores enfrentam israelenses e demandam fim do turismo predatório · operamundi.uol.com.br



