Ibovespa e Dólar sofrem ajustes após eleições; estrangeiros retiram R$ 8,86 bi

Destaques
- •Investidores estrangeiros retiraram R$ 8,86 bilhões da Bolsa brasileira em quatro pregões após as eleições presidenciais.
- •O Ibovespa registrou a maior queda semanal desde março de 2020, enquanto o dólar teve a maior valorização semanal desde 2008.
- •O mercado aguarda definições sobre a equipe econômica, a política fiscal e a eleição das presidências da Câmara e do Senado para avaliar os próximos passos.
Investidores estrangeiros retiraram um total de R$ 8,86 bilhões da Bolsa brasileira em apenas quatro pregões consecutivos, entre os dias 22 e 27 de outubro. Esse movimento representou a devolução de 44% dos recursos que haviam ingressado no mercado ao longo do mês, embora o saldo acumulado de outubro e do ano ainda se mantivesse positivo. O mercado financeiro brasileiro encerrou outubro sob forte pressão, com disparada do dólar e queda acentuada da bolsa de valores.
Na sexta-feira (30), a moeda estadunidense avançou cerca de 1% e fechou perto de R$ 5,45, enquanto o Ibovespa recuou 0,75%, aos 167,9 mil pontos. Na semana, o dólar acumulou valorização superior a 9%, a maior desde a crise financeira de 2008. O principal índice da B3 registrou a pior queda semanal desde março de 2020, no início da pandemia de covid-19.
Reação ao resultado eleitoral e incertezas fiscais
A saída de recursos estrangeiros e a volatilidade nos mercados foram atribuídas, em grande parte, ao resultado das eleições presidenciais. Segundo José Cassiolato, estrategista da Victrix Capital, o mercado está em busca de um novo patamar de preços para o Ibovespa e a movimentação recente está diretamente ligada ao resultado eleitoral.
O estrategista explicou que o impacto nos preços foi consideravelmente maior do que o esperado diante do volume de saída, com um desequilíbrio representativo entre a quantidade de vendas e compras. A aversão ao risco não ficou restrita à Bolsa, afetando também a renda fixa local, bonds brasileiros negociados no exterior e ADRs.
No plano nacional, o desempenho dos ativos foi marcado pelos ajustes do mercado após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelas incertezas sobre a política fiscal brasileira. A expectativa pela definição da equipe econômica do próximo governo e pela apresentação de medidas relacionadas às contas públicas manteve o mercado atento aos rumos da política fiscal.
Pontos-chave para os próximos meses
Cassiolato destacou três momentos decisivos que deverão influenciar o comportamento dos investidores estrangeiros nas próximas semanas. O primeiro é a reunião do Copom, que decidirá sobre a taxa de juros. O segundo ponto diz respeito aos nomes que serão escolhidos para compor a equipe responsável pela gestão da política econômica, em especial o equilíbrio entre promessas de campanha voltadas ao social e o compromisso com a trajetória fiscal.
“Se o governo fizer uma sinalização mais clara desse compromisso com o fiscal, pode haver uma reversão do fluxo de investidores estrangeiros”, afirmou. O terceiro fator apontado pelo estrategista é a eleição dos presidentes do Senado e da Câmara, prevista para o início do próximo ano. Cassiolato ressaltou que esse momento coincide, estatisticamente, com a média histórica de retorno de preços após períodos de queda.
Cenário externo e perspectivas para a Bolsa
Além das incertezas domésticas, o mercado brasileiro acompanhou um ambiente internacional desfavorável, marcado pela cautela dos investidores em relação às empresas de tecnologia dos Estados Unidos e às perspectivas para a inflação e os juros globais. Em Nova York, os principais índices de Wall Street fecharam em queda, refletindo preocupações com resultados de grandes empresas de tecnologia e investimentos em inteligência artificial.
Apesar do cenário de incerteza, o Brasil possui atrativos estruturais aos olhos do investidor internacional, especialmente por sua exposição a commodities e ao setor financeiro. Casas de análise veem oportunidades para os próximos meses, com papéis de setores regulados (como saneamento e energia) e companhias com perfil exportador e receitas em dólar (como Petrobras e Vale) sendo consideradas estratégicas.
O Ibovespa voltou a ser negociado com um preço sobre lucro (P/L) de 7,9 vezes, abaixo da média de 10 vezes na última década, indicando que a bolsa brasileira voltou a ficar mais barata. Analistas do Itaú BBA projetam um retorno total de 25% ao ano para o índice em um horizonte de três anos, caso o ambiente macroeconômico se estabilize.
Matérias originais
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