IA concentra valor nos EUA; investidor brasileiro precisa buscar gestores menores

Destaques
- •Inteligência artificial impulsiona nova concentração de valor tecnológico nos Estados Unidos, com a maior parte do capital de startups AI-native concentrada no país.
- •Investidores brasileiros devem buscar gestores de venture capital menores e mais especializados nos EUA para capturar o valor em ascensão da IA, pois grandes fundos já atraem a maior parte do capital.
- •A janela para investir em empresas de IA nos EUA é agora, antes que o valor se torne consenso e os preços de entrada subam, com a adoção da tecnologia chegando ao Brasil com atraso.
A inteligência artificial (IA) está impulsionando uma nova concentração de valor tecnológico, com a maior parte do capital e do valor gerado por startups AI-native (nativas de IA) concentrada nos Estados Unidos. Essa tendência reverte a dispersão observada entre 2020 e 2024, quando o trabalho remoto e o amadurecimento de novos polos tecnológicos sugeriam uma inovação mais distribuída globalmente.
Relatórios recentes, como o da Startup Genome, indicam que os 20 maiores ecossistemas de tecnologia voltaram a concentrar 75,4% do valor total gerado por startups no mundo, o mesmo patamar de 2020. O Vale do Silício, em particular, aumentou sua fatia para 28,3%. O motor dessa reversão é a IA, com o valor dos ecossistemas AI-native ultrapassando US$1 trilhão em 2025, um aumento de 507% desde 2020. Entre 2023 e 2025, a América do Norte recebeu 78% de todo o venture capital investido globalmente em startups de IA, e 43% das novas empresas do setor nasceram nos EUA.
Concentração e o papel da China
Enquanto os EUA se consolidam como o principal polo de criação de valor em IA, a China surge como o outro grande centro de desenvolvimento, embora com um modelo de financiamento distinto. Segundo o AI Index 2026 de Stanford, a China produziu 30 modelos de IA relevantes no último ano, contra 15 no ano anterior, e seu melhor modelo está apenas 2,7% atrás do americano em desempenho. O país lidera em publicações científicas e pedidos de patente em IA.
No entanto, o capital privado nos EUA totalizou US$285,9 bilhões em 2025, enquanto na China foi de US$12,4 bilhões. O investimento chinês é majoritariamente estatal, com pouca participação estrangeira e sob restrições geopolíticas. Nos EUA, o polo é financiado por capital privado e aberto a investidores internacionais.
Uma barreira regulatória americana, transformada em lei em dezembro de 2025, proíbe investidores dos EUA de fazerem certos investimentos em empresas chinesas de IA, semicondutores e computação quântica, dificultando o acesso do capital internacional ao mercado chinês.
Lições de crises passadas e o futuro do investimento
A concentração de valor em tecnologias de fronteira, como a IA, tende a se manter onde a criação se inicia, devido ao acúmulo de conhecimento técnico. Pesquisas de Josh Lerner, de Harvard, indicam que polos pioneiros mantêm sua vantagem por 30 anos ou mais.
Crises passadas, como a bolha da internet (1999-2001), a crise imobiliária (2008) e a alta dos juros (2021-22), demonstraram que o valor de longo prazo se concentra nas empresas criadas na origem da tecnologia. Mesmo durante recessões, novas ondas de inovação surgiram, como Airbnb e WhatsApp em 2008, e ChatGPT em 2022.
Para o investidor brasileiro, o risco não é deixar de adotar IA, mas se tornar um "consumidor produtivo" de uma tecnologia cujos ativos valiosos pertencem a outros. Os ganhos da IA tendem a ir mais para o capital do que para o trabalho, tornando a propriedade do capital na origem ainda mais crucial.
Estratégia para o investidor brasileiro
A fundadora da Nido, Laura Constantini, destaca que a janela de entrada nas empresas que vão capturar o valor da IA é curta e está ocorrendo agora. Ela argumenta que investir apenas no Brasil significa olhar o futuro pelo retrovisor, capturando apenas o eco da criação de valor.
A estratégia recomendada para famílias brasileiras envolve duas decisões: onde investir e com quem investir. A primeira é seguir a concentração e investir nos EUA, onde a IA está sendo criada. A segunda é buscar gestores de venture capital menores, com teses e originação diferenciadas, que disputam menos capital e negociam melhores condições de entrada, com maior probabilidade de obter retornos superiores.
Gestores como a Mighty Capital e a Chamaeleon ressaltam que a proteção de negócios de software agora depende de dados proprietários e efeitos de rede, e que o valor real da IA está nas camadas técnicas difíceis de construir e copiar, não apenas em interfaces sobre modelos existentes.
Matérias originais
- O caminho para inovação em IA passa pelos EUA · startups.com.br


