Governo e campanha de Bolsonaro divergem sobre privatização de estatais e IA

Destaques
- •Ministra Esther Dweck rebate críticas sobre Serpro e Dataprev, afirmando que estatais são lucrativas e essenciais para dados estratégicos do Brasil.
- •Campanha de Flávio Bolsonaro defende reforma administrativa com IA para reduzir custos e funcionalismo público.
- •Debate sobre IA na gestão pública foca em aumento de produtividade versus substituição de humanos e necessidade de supervisão.
A disputa eleitoral presidencial no Brasil ganha contornos tecnológicos com divergências acirradas entre as campanhas sobre o futuro de estatais e o uso da inteligência artificial (IA). A ministra da Inovação e Gestão, Esther Dweck, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, defendeu as empresas públicas Serpro e Dataprev, classificando-as como altamente lucrativas e cruciais para a soberania digital do país. Ela rebateu as críticas da coordenação econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, que defende a privatização dessas estatais.
Dweck destacou que Serpro e Dataprev foram incluídas no Programa Nacional de Desestatização pelo governo anterior e que a intenção de privatizá-las preocupa, pois elas armazenam dados estratégicos do governo e informações vitais dos brasileiros. "Essas empresas guardam a vida dos brasileiros. E isso vai ficar na mão de uma empresa privada, que terá acesso a todos os dados da Receita e dos dados sociais dos brasileiros?", questionou a ministra.
Segundo a ministra, as estatais renderam um lucro de meio trilhão de reais nos três primeiros anos do governo Lula, um aumento de 20% em relação ao período anterior. Os investimentos em 2023 foram de R$ 140 bilhões, e para 2026, a previsão é de R$ 140 bilhões, visando trazer dados estratégicos para o Brasil. "Me dá medo ver a possibilidade de privatização dessas duas empresas", afirmou.
Inteligência Artificial: Aliada ou Substituta?
O debate sobre IA também é um ponto de discórdia. A ministra Esther Dweck reconhece o uso de mais de 180 projetos de IA no governo federal, mas rejeita a tese de que a tecnologia levará à substituição de servidores públicos. "A IA, sem dúvida nenhuma, tem todo o potencial de aumentar enormemente a produtividade do setor público, mas isso não significa que você não vai precisar de pessoas trabalhando", declarou.
Ela admitiu que a IA pode eliminar tarefas repetitivas e alterar a necessidade de pessoal, mas ressaltou a importância da supervisão humana. "Não pode ter IA tomando decisões sem que tenha humanos revisando aqueles processos decisórios", alertou, lembrando que sistemas de IA podem cometer erros e reproduzir vieses. A ministra enfatizou que, embora a IA possa auxiliar na análise de benefícios ou identificação de irregularidades, a responsabilidade final por decisões que afetam direitos deve recair sobre um indivíduo.
Em contrapartida, a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, defende uma "reforma administrativa digital" baseada em IA, visando o enxugamento da estrutura pública e a redução de custos. Ela questionou quantas carreiras operacionais e administrativas poderiam ser substituídas pela IA na era atual, sugerindo a demissão de servidores.
Governança e Riscos da Autonomia Tecnológica
Executivos globais têm adotado a IA como motor de suas estratégias de negócios, mas a delegação de controle a algoritmos expõe a vulnerabilidade da capacidade humana de supervisioná-los. Um estudo da Sinch aponta o Brasil como um mercado agressivo na adoção de IA, mas com desafios na estrutura de controle.
A autonomia em larga escala da IA não elimina a gestão humana, mas eleva a governança corporativa a um patamar crítico. O erro algorítmico, diferente do humano, ocorre em escala massiva e na velocidade da luz. Um viés estrutural em um modelo de IA pode rejeitar milhares de clientes ou candidatos legítimos em segundos, replicando preconceitos históricos.
A responsabilidade legal, civil e criminal por falhas de algoritmos, como violação de privacidade ou discriminação, recai sobre os diretores e a empresa, não sobre a máquina. Para mitigar riscos, empresas devem implementar auditorias regulares, adotar IA explicável (XAI) e criar conselhos multidisciplinares e travas de segurança automáticas.
Decisões que impactam vidas humanas, como concessão de crédito ou diagnósticos médicos, jamais devem ser 100% delegadas a robôs. A validação final por um profissional humano é a última barreira contra a ignorância automatizada. As organizações que liderarão o futuro serão aquelas que souberem governar suas máquinas com precisão.


