Filósofo analisa impacto da saída de Flávio Bolsonaro e futuro do bolsonarismo

Destaques
- •A saída de Flávio Bolsonaro para os EUA e a prisão de Jair Bolsonaro desorganizam politicamente o bolsonarismo, abrindo espaço para a direita democrática.
- •O filósofo Renato Lessa define o 'homo bolsonarus' como um sujeito violento, que vê adversários como inimigos a serem abatidos, e que se espalhou pela sociedade.
- •Apesar da derrota eleitoral, o bolsonarismo como fenômeno social não acabou e pode se reorganizar, enquanto a direita precisa de autocrítica.
A ida de Flávio Bolsonaro (PL) para a Flórida, nos Estados Unidos, e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) geram uma desorganização política no campo bolsonarista, segundo o filósofo político Renato Lessa, professor da PUC-Rio. Para Lessa, essa conjuntura abre uma chance para a direita democrática se reequilibrar no cenário político brasileiro, após ter sido "colonizada" pelo bolsonarismo.
Em entrevista à BBC News Brasil, Lessa argumenta que, embora o bolsonarismo como fenômeno social e padrão de comportamento violento persista, sua força política pode ser enfraquecida pela ausência de seus principais líderes no país. Ele define o "homo bolsonarus" como um sujeito "violento", para quem adversários são "inimigos que devem ser abatidos", e que busca uma liberdade natural sem mediações legais, o que ele chama de "estado de natureza brasileiro".
O "homo bolsonarus" e a ruptura democrática
O filósofo explica que a ascensão do bolsonarismo foi possível após a ruptura na trajetória de aprofundamento da democracia brasileira, iniciada com a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e que vinha ampliando direitos coletivos. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018, segundo Lessa, marcou a "extrema politização" de uma violência já existente na sociedade, transformando-a em um fato político e, posteriormente, levando-o à Presidência.
Lessa descreve o bolsonarismo como um fenômeno inédito, que busca a destruição do ambiente político e civilizatório construído no Brasil desde o modernismo, especialmente após a Constituição de 1988. Ele contrapõe o "homo bolsonarus" ao "homo democraticus", que emergiu com a expansão dos direitos e a participação popular, como visto nas manifestações recentes.
A carta de Bolsonaro e o futuro da direita
A carta publicada por Jair Bolsonaro após chegar aos EUA é classificada por Lessa como um "delírio completo" e um "documento de patologia política", que o desqualificou como líder da oposição. Ele aponta que outros atores, como Michele Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, podem tentar ocupar esse vácuo.
Lessa ressalta que o bolsonarismo não sobrevive como força política sem "colonizar" a direita. A viagem de Flávio Bolsonaro, portanto, pode ser um catalisador para que o campo da direita promova uma autocrítica e se reorganize para além da influência bolsonarista, buscando um retorno a um eixo político mais equilibrado.
Resistência e o "estado de natureza brasileiro"
O filósofo compara o bolsonarismo a fenômenos globais como o MAGA de Donald Trump e o de Javier Milei, cada um com suas particularidades moldadas pela história de seus países. Ele vê o "homo bolsonarus" como uma expressão do "terreno da brutalidade brasileira", marcado pela violência difusa, iniquidade e indiferença, que a democracia brasileira tem tentado regrar desde o século 20.
Apesar da vitória de Lula em 2022, Lessa alerta que o bolsonarismo não está derrotado, pois o "homo bolsonarus" está disseminado. Ele vê a vitória de Lula como uma tentativa de retomar a trajetória democrática interrompida pelo impeachment de Dilma Rousseff, mas reconhece que o cenário político mudou, com novas formas de luta e politização.



