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Filme "O Projeto" debate colonialismo e racismo com perspectiva brasileira e europeia

07 de novembro de 2026
Filme "O Projeto" debate colonialismo e racismo com perspectiva brasileira e europeia

Destaques

  • •O documentário "O Projeto", dirigido por Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, estreia em 19 de novembro e aborda os legados do colonialismo europeu e o racismo.
  • •O filme utiliza histórias pessoais dos diretores para discutir a dominação colonial, o racismo e a supremacia branca, com entrevistas de intelectuais e ativistas.
  • •Um estudo recente, "A Cor do Som", também aponta para a existência de racismo na indústria do áudio e audiovisual no Brasil, com práticas que desvalorizam a diversidade sonora e racial no mercado de trabalho.

O documentário "O Projeto", primeiro longa-metragem da cineasta brasileira Sabrina Fidalgo e co-dirigido pelo fotógrafo suíço Yvan Rodic, estreia nos cinemas em 19 de novembro, marcando o Mês da Consciência Negra. O filme propõe uma reflexão profunda sobre os séculos de colonialismo europeu e suas marcas ainda presentes na sociedade, como o racismo e a supremacia branca.

Selecionado para a competição de documentários do 54º Festival de Cinema de Gramado e exibido na abertura do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, "O Projeto" nasceu de inquietações íntimas dos diretores. A obra parte de um ensaio que cruza reflexões sobre a necessidade de enfrentar a dominação colonial com vivências pessoais. "Achamos que seria mais potente contar [como se dá] esse projeto [colonial] através de nossas histórias, de nossos corpos, nos aproximando do público", explicou Sabrina Fidalgo, ressaltando que o intuito não era fazer um documentário histórico tradicional.

Senso de urgência e perspectivas diversas

O filme foi impulsionado pela indignação com o assassinato de George Floyd em 2020, que gerou protestos globais contra a violência policial racista. Yvan Rodic, falando como homem branco, sentiu um "senso de urgência" para agir. Inicialmente, a ideia era que o filme fosse mais focado em sua perspectiva, mas logo perceberam a importância de incluir a visão de Sabrina, que, mesmo oriunda da classe média, enfrentou discriminação por ser negra.

Yvan Rodic também traz a perspectiva de um país como a Suíça, onde a discussão sobre a responsabilidade no sistema colonial é relativamente recente. "Até 2022, esse era um tema inexistente", afirmou o fotógrafo, destacando que, embora a situação tenha mudado, a necessidade de envolver mais pessoas brancas na discussão permanece. Ele avalia que um filme antirracista feito exclusivamente por uma pessoa negra poderia despertar menos interesse nesse público.

Colonialidade e o papel do Norte Global

"O Projeto" aborda não apenas os ganhos financeiros europeus com o colonialismo, mas também o papel do Norte Global no enfrentamento à colonialidade. O conceito de colonialidade, que vai além da ocupação territorial, engloba arranjos políticos, econômicos e socioculturais que criam relações de dependência. Janaína Refem, vice-presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), vê o filme como uma porta de diálogo com pessoas brancas, afirmando que "o racismo é um problema inventado pelos brancos".

O cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo elogiou Sabrina Fidalgo como uma cineasta "muito original e talentosa" da nova geração.

Pesquisa, entrevistas e próximos passos

Realizado ao longo de seis anos e com passagens por sete países, "O Projeto" utiliza pesquisa histórica e entrevistas com personalidades como a filósofa Djamila Ribeiro, o escritor Anderson França, a arquiteta Joice Berth, o historiador suíço Hans Fässler, a artista visual afegã Moshtari Hilal e a jornalista francesa Rokhaya Diallo. O filme também integrou a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e será exibido no 36º Cine Ceará.

Paralelamente, um estudo recente intitulado "A Cor do Som", elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, aponta para a existência de racismo na indústria do áudio e audiovisual no Brasil. A pesquisa, que ouviu 24 profissionais, acadêmicos e ativistas, revela que a produção de áudio no país segue um paradigma europeu, colonial e elitista, buscando "higienizar" o som e descartar marcas culturais afro-brasileiras. O estudo também destaca desigualdades no mercado de trabalho, com profissionais negros recebendo menos, tendo dificuldade em cobrar valores compatíveis com sua qualificação e sendo submetidos a mais trabalhos braçais.

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