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Ex-presidente do BC: Juros altos e dívida pública em círculo vicioso

01 de novembro de 2026
Ex-presidente do BC: Juros altos e dívida pública em círculo vicioso

Destaques

  • •Gustavo Loyola alerta que juros altos no Brasil podem se tornar um círculo vicioso com o aumento da dívida pública, caso não haja controle fiscal.
  • •O ex-presidente do Banco Central prevê que os juros permanecerão em dois dígitos até 2028, no mínimo, devido ao prêmio de risco e à falta de ajuste fiscal.
  • •Loyola defende que o Banco Central não consegue segurar a economia sozinho e que a falta de engajamento político com os problemas fiscais é uma ameaça ao equilíbrio de longo prazo.

O ex-presidente do Banco Central (BC), Gustavo Loyola, alertou que a manutenção de juros altos no Brasil pode se transformar em um círculo vicioso, com o aumento da dívida pública, caso não haja um controle efetivo das contas públicas. Segundo ele, a tentativa de estabilizar a economia apenas pela via monetária, sem o devido ajuste fiscal, pode gerar o efeito oposto e limitar a margem de manobra para a redução da taxa básica de juros, a Selic.

Em participação no videocast Stock Pickers, Loyola explicou que a dinâmica se estabelece da seguinte forma: juros mais altos levam a um aumento da dívida pública. Se esse aumento não for acompanhado por um controle do resultado primário (o superávit ou déficit das contas do governo antes do pagamento de juros), o prêmio de risco sobe, exigindo ainda mais juros. Esse processo, segundo ele, vira uma "bola de neve", pressionando a condução da política monetária.

Juros altos e dívida: um ciclo vicioso

Loyola detalhou o mecanismo que leva ao agravamento da situação. "Se cria um círculo vicioso: os juros mais altos geram um aumento da dívida pública; o aumento da dívida pública não tem nenhuma contrapartida do ponto de vista de controle do resultado primário; isso aumenta o prêmio de risco, pede-se mais juros, enfim, vira um círculo vicioso, uma bola de neve", afirmou.

Ele ressaltou que o Banco Central atua em um cenário cada vez mais isolado, recebendo pressões crescentes por cortes de juros tanto de agentes econômicos quanto do meio político. "Uma andorinha só não faz verão; o Banco Central sozinho não consegue segurar o tranco", disse, comparando a situação a um ditado popular.

O ex-presidente do BC pontuou que, na ausência de um ajuste fiscal e com uma economia "anêmica", as críticas ao Banco Central tendem a se intensificar. Caso a autarquia ceda a essas pressões, a situação tende a piorar, segundo Loyola.

Perspectiva para os juros e riscos fiscais

A combinação entre a meta de inflação de 3%, o processo inflacionário global e o comportamento do câmbio brasileiro afasta a perspectiva de um alívio rápido nos juros. Mesmo com a desaceleração da atividade econômica e o recuo das commodities ajudando a conter a inflação, Loyola acredita que os juros permanecerão em patamares elevados.

"Eu acredito que, mesmo que surja espaço para queda de juros, eu diria que ainda continuarão em dois dígitos pelo menos até 2028, no mínimo", projetou. Ele também descartou a possibilidade de retorno a patamares de juros pré-pandemia.

Além das barreiras técnicas, a falta de engajamento da classe política na resolução dos problemas fiscais é apontada como uma ameaça ao equilíbrio de longo prazo. Loyola criticou a visão de que restrições orçamentárias são secundárias, pois isso dificulta a implementação de reformas e mantém o país em uma trajetória que ele considera perigosa.

"Acho que não é uma situação de se ter medo, não acho que o Brasil está diante de uma crise iminente do ponto de vista econômico, mas eu diria que nós estamos numa trajetória bastante perigosa", alertou o ex-presidente do BC.

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