Títulos públicos atrelados à Selic batem recorde e expõem governo a juros

Destaques
- •Participação de títulos públicos remunerados por taxas flutuantes, como a Selic, atingiu 52,74% da Dívida Pública Federal em agosto de 2026, o maior patamar da série histórica.
- •Cada ponto percentual de aumento na Selic, mantido por 12 meses, adiciona R$ 48 bilhões ao custo anual da dívida, segundo estimativas.
- •O Tesouro terá que refinanciar R$ 1,08 trilhão em Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) em 2027, com a previsibilidade das contas públicas sendo crucial para reduzir o prêmio de risco.
A participação dos títulos públicos remunerados por taxas flutuantes, especialmente os atrelados à Selic, alcançou 52,74% da Dívida Pública Federal (DPF) em agosto de 2026, marcando o maior percentual da série histórica iniciada em dezembro de 2000. Embora tenha recuado ligeiramente para 51,60% em setembro, mais da metade da dívida federal, equivalente a R$ 4,84 trilhões, permanece vinculada a taxas flutuantes, aumentando a exposição do governo às oscilações da taxa básica de juros.
O recorde de agosto superou o pico anterior de 52,06% registrado em abril de 2003, segundo levantamento do assessor de investimentos Cristiano Henrique Luersen, sócio da Wiser/BTG Pactual. Ele ressalta que a tendência de alta é mais significativa, com a parcela flutuante da dívida federal tendo crescido quase 12 pontos percentuais desde o final de 2023, quando era de 39,7%.
Risco e Custo para o Governo
As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) são títulos pós-fixados cuja remuneração acompanha a Selic. Diferentemente dos títulos prefixados, cujo custo é definido na emissão, o custo das LFTs varia conforme as decisões do Banco Central. Com a Selic em 13,75% ao ano, esses papéis mantêm uma remuneração elevada.
Luersen estima que as LFTs tiveram um custo médio de 14,67% ao ano nos 12 meses encerrados em setembro, superando o custo médio de 13,03% da dívida interna. O especialista projeta que cada aumento de 1 ponto percentual na Selic, mantido por 12 meses, adiciona R$ 48 bilhões ao custo anual da dívida, considerando o estoque de LFTs de setembro e sem alterações no volume de títulos. Esse impacto funciona em ambos os sentidos: uma redução de 1 ponto percentual na taxa básica diminuiria os encargos em valor semelhante.
“Quando o Tesouro vende um prefixado, trava o custo até o vencimento, e o risco de alta dos juros fica com quem comprou o título. Quando vende LFT, faz o contrário: protege o investidor e fica com o risco”, explicou Luersen.
Mudança no Perfil do Endividamento
A participação dos títulos de taxa flutuante na dívida federal avançou de 39,66% em dezembro de 2023 para 46,29% em 2024 e 48,25% ao final de 2025, culminando nos 52,74% em agosto de 2026. Essa evolução representa um aumento de 13,08 pontos percentuais em relação ao final de 2023.
Em contraste, a vinculação da dívida federal ao câmbio, que representava 45,8% no final de 2002, caiu para 3,7% em setembro de 2026. “Em 2002 e 2003, o principal canal de risco para a dívida era o câmbio, e hoje é o juro”, afirmou Luersen.
O especialista avalia que o risco atual está mais concentrado no custo de financiamento do que na capacidade de refinanciamento, dado o prazo médio da dívida de 4,1 anos e a reserva de liquidez de R$ 1,27 trilhão mantida pelo Tesouro.
Próximos Passos e Estratégias do Tesouro
Apesar da predominância das LFTs, o Tesouro Nacional continua a emitir outras modalidades de títulos. Em setembro, as emissões de prefixados somaram R$ 77,28 bilhões, superando os R$ 71,75 bilhões emitidos em papéis de taxa flutuante. A preferência por LFTs ganhou força diante da alta dos juros futuros, com taxas de contratos com vencimento em 2035 saltando de 12,7% para 15,2% ao ano entre 23 e 26 de outubro, após o resultado das eleições presidenciais.
Para lidar com a instabilidade do mercado, o Tesouro realizou recompras extraordinárias de R$ 31,6 bilhões em títulos públicos nos dias 26 e 27 de outubro. A emissão de LFTs pode ser uma estratégia defensável para evitar a contratação de juros prefixados elevados por muitos anos, mas sua eficácia depende de uma futura redução da Selic.
O Tesouro terá que refinanciar R$ 1,08 trilhão em LFTs em 2027, sendo R$ 581,6 bilhões em 1º de março e R$ 501,5 bilhões em 1º de setembro. A parcela da dívida federal com vencimento em até 12 meses subiu para R$ 1,87 trilhão em setembro de 2026. A redução da dependência das LFTs e a volta à venda de prefixados a taxas menores dependem de uma melhora nas condições de financiamento do governo, o que, segundo Luersen, exige previsibilidade nas contas públicas.
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- Dívida atrelada à Selic bate recorde histórico em 2026 · poder360.com.br



