EUA: Listas de não cidadãos podem contestar eleições de meio de mandato

Destaques
- •Governo Trump enviou listas de supostos não cidadãos a estados para contestar eleitores registrados.
- •Ações judiciais para impedir a contagem de votos de não cidadãos enfrentam obstáculos legais e podem gerar 'caos'.
- •Comunidades imigrantes temem intimidação e operações migratórias perto de locais de votação.
O governo do ex-presidente Donald Trump compilou e enviou listas de supostos não cidadãos a autoridades eleitorais em cinco estados americanos – Califórnia, Washington, Nova Jersey, Pensilvânia e Nevada – com o objetivo de contestar a validade de votos nas eleições de meio de mandato, marcadas para terça-feira. O Partido Republicano busca manter o controle do Congresso, e essas listas podem ser usadas para questionar resultados em pleitos acirrados.
Em uma carta de 13 de outubro, o Departamento de Justiça alertou a Califórnia para não contar os votos de cerca de 20 mil eleitores registrados que, segundo agências federais, provavelmente não são cidadãos. O governo ameaçou processar mesários que contassem esses votos, e Trump endossou o alerta nas redes sociais, afirmando que os envolvidos iriam para a prisão. O Departamento de Justiça está processando a Califórnia para impedir a contagem desses votos, mas o estado alega ter proteções robustas contra o voto de não cidadãos.
O que dizem as autoridades e especialistas
Autoridades estaduais rejeitaram os pedidos para anular os votos das pessoas nas listas. O Departamento de Justiça, por sua vez, intensificou processos contra o voto de não cidadãos, argumentando que "cada voto ilegal anula o voto de um cidadão americano". No entanto, evidências indicam que o voto de não cidadãos é extremamente raro, com apenas 129 casos federais acusados desde 1996, muitos por confusão ou erros administrativos. O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, alegou sem provas ter encontrado 300 mil não cidadãos em cadernos eleitorais.
O governo federal não possui uma lista centralizada de cidadãos aptos a votar, mas buscou dados eleitorais estaduais. Pelo menos 16 estados atenderam ao pedido, enquanto 30 foram processados por não fornecerem listas não censuradas. A maioria das 27 ações judiciais contra esses estados foi rejeitada, com juízes concluindo que o governo federal não tem papel na determinação da elegibilidade dos eleitores.
Impacto e obstáculos legais
As listas podem servir de base para contestações eleitorais, mesmo com dificuldades legais. Especialistas jurídicos apontam que um candidato derrotado poderia argumentar que votos de supostos não cidadãos impediram a determinação do vencedor legítimo. O Departamento de Justiça afirmou que aplicará a lei onde as evidências levarem.
Contudo, tais contestações enfrentam obstáculos significativos, pois análises das listas revelaram que muitas pessoas listadas são cidadãos americanos. Um juiz federal da Califórnia rejeitou a tentativa do Departamento de Justiça de bloquear 20 mil votos, citando "caos" e questionando a confiabilidade da lista. Um tribunal de apelação manteve a decisão, alertando para o risco de privar eleitores qualificados do direito de voto. O Departamento de Justiça pode recorrer à Suprema Corte, mas reconhece que a lista pode incluir cidadãos.
Temores de intimidação e presença federal
Organizações de defesa dos direitos dos imigrantes e grupos de monitoramento eleitoral alertam para o risco de que a presença de agentes federais, ou a possibilidade de operações migratórias, intimide eleitores, especialmente em comunidades imigrantes. Embora o governo negue planos de patrulhamento eleitoral e afirme que funcionários terão funções de observação sem poder de polícia, ações migratórias anteriores alimentam a preocupação.
A intensificação de operações do ICE em cidades como Bakersfield e Wasco, na Califórnia, com aumento significativo de prisões em outubro, ocorre em distritos eleitorais disputados. A legislação federal restringe a presença de agentes armados em locais de votação, exceto em situações de necessidade extrema. Especialistas afirmam que a proibição alcança agentes do ICE, e normas estaduais também impõem restrições. A Human Rights Watch pediu zonas livres de operações do ICE durante o período eleitoral, citando pesquisas que indicam receio de presença federal em locais de votação, especialmente entre não brancos.


