Estudo liga carne bovina a desmatamento; Brasil é foco de atenção

Destaques
- •Pesquisa sueca aponta carne bovina como principal motor de desmatamento global, com Brasil respondendo por 63% da derrubada associada à commodity.
- •Análise relativiza a atribuição direta, destacando complexidades fundiárias, sociais e a predominância do mercado doméstico.
- •Iniciativas como 'Vozes da Pecuária' buscam dar protagonismo aos produtores na construção de uma pecuária sustentável.
Um estudo publicado na revista Nature Food em fevereiro deste ano, conduzido pelos cientistas Chandrakant Singh e Ulf Martin Persson, da Chalmers University of Technology, na Suécia, aponta a produção de carne bovina como o principal fator de desmatamento global associado a commodities. A pesquisa, que utilizou o modelo DeDuCE (Deforestation Driver and Carbon Emission), analisou dados espaciais para quantificar o desmatamento ligado a diferentes produtos. Entre 2001 e 2022, pastagens foram responsáveis por 42% do desmatamento total, e o Brasil se destacou como o maior contribuinte, respondendo por cerca de 63% do desmatamento mundial atribuído à carne bovina.
Em agosto, o site Our World in Data deu ampla visibilidade ao tema com a publicação "Beef production in Brazil has been the largest driver of global deforestation in recent decades". A análise sueca, no entanto, ressalta a complexidade do tema, alertando para a transformação de uma abordagem científica em um tom ativista que atribui responsabilidade setorial genérica. O estudo original considera a definição de florestas e a base cartográfica utilizada, além de empregar atribuições estatísticas quando a commodity não pode ser diretamente identificada após o desmatamento.
Complexidades na atribuição de responsabilidade
Embora as evidências da forte associação entre a conversão de florestas em pastagens e o desmatamento amazônico sejam robustas, a atribuição direta a uma atividade econômica específica pode levar a uma demonização genérica do setor. É crucial considerar o processo de ocupação e transformação do território, que envolve dinâmicas fundiárias, sociais e a legalidade inicial da abertura de áreas. Estudos de organizações como Imazon e Ipam reforçam a ligação entre desmatamento e insegurança fundiária, onde a presença de gado pode estar associada a estratégias de ocupação de terra ligadas à fragilidade fundiária e vulnerabilidade socioeconômica.
A pesquisa de Singh e Persson indica que a maior parte da pressão histórica atribuída à carne brasileira vem do mercado doméstico, respondendo por 85%, enquanto as exportações representam apenas 15%. Essa heterogeneidade do consumo interno, derivado de uma vasta diversidade de indústrias, precisa ser considerada. O Brasil contava com 1.123 frigoríficos e abatedouros de bovinos em 2025, submetidos a diferentes níveis de inspeção sanitária oficial (federal, estadual ou municipal). Os frigoríficos com inspeção federal, embora representem 17% das indústrias, respondem por cerca de 75% do peso total da carne produzida.
Desmatamento legal vs. ilegal e o papel dos pecuaristas
A publicação da Our World Data, segundo a análise, não distingue entre desmatamento legal e ilegal, um ponto relevante para um debate aprofundado. A estratégia de "blame and shame" (culpar e envergonhar) grandes marcas não aborda a realidade completa do mercado nem aponta soluções eficazes. Um aspecto fundamental, que as publicações não tangenciam, é a participação ativa dos próprios pecuaristas na compreensão da relação entre produção bovina e uso da terra.
A iniciativa Vozes da Pecuária, criada em 2025, busca fortalecer a representatividade e o protagonismo dos pecuaristas na construção de uma pecuária sustentável. Mobilizando centenas de produtores em oito estados, a iniciativa traduz suas vozes em documentos que abordam a identidade de dez territórios produtores de carne bovina no Brasil. Essa abordagem reconhece a heterogeneidade das regiões, considerando sua origem, tradições, condições fundiárias, ciclos produtivos, genética, integração agrícola e intensidade da produção.
As matrizes territoriais desenvolvidas pela iniciativa detalham os principais desafios de cada região, como necessidade de capital, assistência técnica, questões sanitárias, infraestrutura logística, conectividade, questões tributárias, relação com a conservação ambiental, conflitos sociais e agregação de valor. Apresentam também compromissos dos pecuaristas e pactos com governos e mercado, visando o desenvolvimento econômico e social local, associado à conservação ambiental e à agenda climática. O site da iniciativa oferece mídias complementares, com depoimentos e documentos produzidos pelos pecuaristas.
O texto conclui que fugir de generalizações, reconhecer a heterogeneidade e manter o diálogo são caminhos essenciais para avanços no tema. Um esforço conjunto entre academia, ativismo ambientalista e pecuaristas é a única alternativa para que o setor, vital para a segurança alimentar global, deixe de ser tratado como um bloco indiferenciado e problemático, e que a escuta ativa dos produtores alavanque a agenda climática e da natureza.



