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Estudo da FGV: Juros altos no Brasil não protegem totalmente o patrimônio

06 de novembro de 2026
Estudo da FGV: Juros altos no Brasil não protegem totalmente o patrimônio

Destaques

  • •Pesquisa da FGV EAESP aponta que taxa Selic elevada reflete riscos do país e não elimina necessidade de diversificação internacional.
  • •Estudo revela que ativos brasileiros apresentam alta correlação entre si, enquanto o dólar oferece contraponto relevante.
  • •Especialistas recomendam internacionalização de parte dos recursos para reduzir dependência de uma única economia.

Um novo estudo do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP (FGVcef) questiona a ideia de que a taxa Selic elevada, atualmente em dois dígitos, dispensa a necessidade de investimentos no exterior para proteger o patrimônio brasileiro. A pesquisa, intitulada "Ir para o exterior é fundamental: por que a Selic alta não protege totalmente o patrimônio brasileiro", conclui que o juro alto é, na verdade, um reflexo dos riscos que o investidor assume ao concentrar seus recursos no Brasil e que o patrimônio pode não estar verdadeiramente protegido mesmo com o CDI subindo por anos.

Os pesquisadores analisaram cinco classes de investimento no mercado brasileiro entre 2011 e 2026, incluindo bolsa, renda fixa, fundos multimercados e imobiliários. Em todos os períodos, tanto de juro real alto quanto baixo, as correlações entre essas classes foram positivas, indicando que elas tendem a subir e cair juntas, sujeitas aos mesmos choques da economia brasileira. A diversificação dentro do país, portanto, reduz alguns riscos, mas não elimina a concentração.

Concentração de riscos no mercado brasileiro

O estudo aponta que a concentração de riscos no Brasil ocorre de duas formas na bolsa de valores. Primeiro, pelo peso de poucas empresas: as cinco maiores companhias representam 41,4% do Ibovespa, que se comporta como um índice com apenas 20,1 empresas de mesmo peso, diferente do S&P 500 americano (45,2). Segundo, pelo peso de poucos setores, com a bolsa brasileira ainda focada em petróleo, mineração e bancos, enquanto a americana se transformou com a tecnologia.

A declaração de Imposto de Renda corrobora a concentração: apenas 6,3% dos R$ 19,4 trilhões em bens e direitos declarados estão no exterior. No núcleo de imóveis, aplicações financeiras e fundos (58,9% do total), a parcela externa cai para 2,2%, deixando 97,8% do patrimônio sujeito a uma única economia.

Dólar como contrapeso e o cenário internacional

Em contrapartida, o dólar apresentou correlação negativa com as classes domésticas nos períodos analisados, chegando a -0,65 em relação à bolsa. Em 84 meses de queda do Ibovespa entre 2011 e 2026, o dólar se valorizou em média 3,11%, oferecendo um contrapeso relevante. A percepção de que "lá fora não rende" também é revista, pois, após a volta da inflação nos EUA, o Federal Reserve elevou juros e títulos americanos voltaram a pagar taxas atrativas, como 4,73% ao ano para o título de dez anos em julho de 2026.

A pesquisa comparou o CDI em dólar com crédito corporativo americano, mostrando que o desempenho relativo depende do período de análise. No entanto, o CDI perde sua aparência de trajetória estável quando medido em moeda internacional, e sua baixa oscilação em reais não equivale à mesma estabilidade em dólar. O S&P 500 apresentou retorno real anualizado médio de 8,82% entre 2005 e 2026, contra 1,75% do CDI convertido em dólar.

Internacionalização como estratégia de diversificação

O estudo defende que a internacionalização de parte dos recursos aumenta o número de "apostas independentes" em uma carteira. Ao adicionar três classes internacionais a uma carteira com seis classes brasileiras, o número de apostas independentes subiu de 2,12 para 2,97. Simulações indicam que aportes mensais na bolsa americana renderam 4,97 vezes o total poupado em termos reais, contra 1,97 vez no CDI.

A pesquisa conclui que a escolha não é entre Brasil e exterior, mas entre concentração e diversificação efetiva. A Selic pode remunerar bem, mas não protege integralmente o poder de compra, a renda futura e o patrimônio. Internacionalizar recursos é reduzir a dependência de uma única economia, respeitando os objetivos e a fase de vida de cada investidor.

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