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Economista defende ajuste fiscal gradual e critica corte rápido de juros

06 de novembro de 2026
Economista defende ajuste fiscal gradual e critica corte rápido de juros

Destaques

  • •Tiago Cavalcanti, professor em Cambridge, alerta que não há atalhos para equilibrar as contas públicas e reduzir juros no Brasil.
  • •Ele propõe que o governo anuncie medidas críveis para um ajuste fiscal gradual e critique a proposta de corte rápido da Selic defendida por André Lara Resende.
  • •A ancoragem das expectativas do mercado é crucial para evitar a fuga de capitais e a desvalorização do câmbio.

O economista brasileiro Tiago Cavalcanti, professor titular da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, defende que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa anunciar rapidamente medidas críveis para um ajuste fiscal gradual ao longo dos próximos anos. Segundo ele, não existem "atalhos" para equilibrar as contas públicas e cortar os juros no Brasil, e a ancoragem das expectativas do mercado é fundamental para evitar a fuga de capitais e a desvalorização do câmbio.

Cavalcanti sugere que a primeira medida seja o anúncio de uma nova equipe econômica, com nomes comprometidos com o equilíbrio das contas públicas, e a garantia de apoio político ao grupo. "Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma vez], vamos suavizar isso ao longo dos anos", propõe o economista em entrevista à BBC News Brasil.

Ajuste fiscal e salário mínimo

O professor considera que o controle dos gastos não é incompatível com a promessa de Lula de não cortar programas sociais. No entanto, ele avalia que é necessário mudar a regra que garante reajuste do salário mínimo acima da inflação sempre que há crescimento da economia, algo que Lula prometeu manter. Na visão de Cavalcanti, enquanto as contas públicas não estiverem equilibradas, o governo deveria garantir apenas a reposição da inflação.

O reajuste do salário mínimo tem impacto importante nas despesas porque é o piso para as aposentadorias e pensões do INSS e de benefícios como o BPC, que representam mais de 40% dos gastos primários da União. "Eu acho que recuperar o poder de compra [reajustando o salário mínimo pela inflação] é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, dar aumentos acima da inflação, e isso vai ter repercussões em todos os salários, aposentadorias, etc, já acho que começa a não ser mais compatível [com o ajuste fiscal]", disse.

Críticas à proposta de corte de juros

Cavalcanti também critica a proposta de rápida redução da taxa básica de juros (Selic) apresentada pelo economista André Lara Resende. Resende defende que os juros altos são o principal problema da economia brasileira e propõe um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional que definiria metas fiscais e monetárias para levar a Selic para 7,5% ao ano em 12 meses. A proposta tem dividido economistas, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, já a descartou.

"Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo", afirma Cavalcanti, reforçando que "é difícil você pensar em evidência empírica [que sustente essa proposta]".

André Lara Resende, por sua vez, rebateu as críticas, classificando a comparação com a Turquia como "voluntarismo político absurdo". Ele negou ter sido convidado para uma reunião com o presidente Lula, afirmando que a notícia sobre um possível encontro foi divulgada para prejudicar apoiadores de sua proposta.

Expectativas e o cenário brasileiro

Cavalcanti expressa preocupação com a possibilidade de as expectativas sobre a economia desandarem, levando o governo a buscar atalhos em vez de uma estratégia de longo prazo. Ele lembra a experiência de 2003, quando Lula assumiu compromissos antes de ser eleito, o que ajudou a ancorar as expectativas. "Meu medo é que, se essas coisas [expectativas sobre a economia] desancorarem tão fortemente, o governo acabará adotando uma estratégia não de longo prazo. Ele tentará achar alguns atalhos para brigar contra essas expectativas ou contra o mercado", alertou.

O economista também comentou a alta taxa de juros no Brasil, que considera impossível para o investimento. "Com essa taxa de juros de 13,75% e taxa de juros real de 9% mais ou menos, é muito difícil ter investimento na economia, em que você possa ter um retorno sem risco de curto prazo", disse. Ele ressalta que a dívida pública brasileira se aproxima de 83% do PIB, e que a economia precisaria crescer duas ou três vezes mais do que está crescendo para a dívida parar de crescer em relação à renda.

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