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Engelhart: A trading brasileira que opera no mercado global de commodities

05 de novembro de 2026
Engelhart: A trading brasileira que opera no mercado global de commodities

Destaques

  • •A Engelhart, empresa com raízes no mercado financeiro brasileiro, atua no trading global de matérias-primas, movimentando bilhões de dólares.
  • •A companhia, que nasceu dentro do BTG Pactual, passou por reestruturações após perdas financeiras e hoje foca em interpretação de dados e gestão de riscos.
  • •A aquisição da Trailstone em agosto de 2024 reforçou a atuação da Engelhart em gás, eletricidade e serviços para usinas renováveis.

A Engelhart, uma empresa com raízes no mercado financeiro brasileiro, é um exemplo da complexidade e do volume financeiro envolvido no trading de matérias-primas em escala global. A companhia organiza o fornecimento de grãos, petróleo, gás e metais para indústrias e usinas ao redor do mundo, um negócio que movimenta bilhões de dólares anualmente. Um contrato de abastecimento de gás para uma termelétrica em Pesquería, no México, por exemplo, custou em média US$ 3,8 milhões por mês em 2025.

A operação da Engelhart nasceu em 2013, dentro do BTG Pactual, como uma iniciativa para expandir a experiência dos sócios em negociação e gestão de riscos para além das mesas do banco. A ambição era competir com gigantes do setor, como ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, conhecidas pela sigla ABCD.

Aposta inicial e reestruturação

Comandada inicialmente por Ricardo Leiman, que havia chefiado a Noble, a operação começou como BTG Commodities. A proximidade com o BTG facilitava o acesso a financiamento de baixo custo, crucial para comprar mercadorias e gerenciar compromissos até o recebimento dos clientes.

A expansão foi rápida, com a empresa chegando a quase mil funcionários em 30 escritórios. A marca Engelhart surgiu em 2016, quando a plataforma foi separada da estrutura operacional do banco, que manteve participação no capital. Em 2017, Huw Jenkins, ex-chefe do banco de investimentos do UBS e vice-presidente do conselho do BTG, assumiu o comando cotidiano da trading.

No entanto, a rápida expansão trouxe dificuldades. Jenkins reconheceu em 2023 que a empresa cresceu depressa demais, cometendo erros na negociação de diferentes commodities. As perdas financeiras foram significativas: a Engelhart registrou prejuízos de US$ 243 milhões em 2017 e cerca de US$ 160 milhões em 2018, segundo a Bloomberg.

A reestruturação envolveu o fechamento de escritórios e a saída de negócios físicos de energia, metais e algodão. Em 2019, o BTG vendeu sua participação remanescente, mas a ligação com os sócios do banco permaneceu.

Novo modelo de negócios

Em entrevista à Reuters em 2021, Jenkins explicou que a empresa não havia alcançado escala suficiente em muitos mercados físicos. A diversificação de commodities multiplicava as oportunidades, mas também o trabalho necessário para administrá-las.

A Engelhart diminuiu sua estrutura dedicada à compra, armazenamento e transporte de mercadorias. Em vez disso, passou a usar mais seu conhecimento sobre os produtos para negociar no mercado financeiro, por meio de contratos que se valorizam com a alta ou baixa de preços, sem a necessidade de movimentar fisicamente as cargas.

Este modelo é aplicado hoje em negócios com grãos, petróleo e metais. Em gás, eletricidade e transporte marítimo, a empresa ainda cuida de operações que envolvem abastecer clientes e movimentar cargas, como no caso da termelétrica mexicana.

Expansão em energia e gestão de riscos

A atuação em energia ganhou força em agosto de 2024 com a aquisição da Trailstone, da gestora Riverstone. Essa compra reforçou os negócios com gás e eletricidade, além dos serviços prestados a donos de usinas renováveis, como a gestão da venda da energia produzida, que depende de previsões de sol e vento.

Na gestão internacional, Jenkins conta com Ricardo Fróes como diretor financeiro. A área de negociação é liderada por Namesh Hansjee, contratado em 2023 após passagens pela Rio Tinto e EDF Trading.

A estratégia atual da Engelhart se concentra na capacidade de interpretar informações, calcular preços e administrar riscos. A experiência ensinou o alto custo de tentar dominar todas as etapas do comércio de diferentes matérias-primas simultaneamente.

Oportunidades no mercado físico e financeiro

O mercado de trading de commodities envolve a compra e venda de produtos com diferentes preços dependendo do local, data de entrega e qualidade. Uma trading organiza toda a operação, desde a compra da produção até a entrega ao consumidor final, gerenciando logística, transporte e financiamento.

As grandes tradings, como a Bunge, que registrou receita líquida de US$ 70,3 bilhões em 2025, operam com margens apertadas. Para cada US$ 100 vendidos, menos de US$ 5 sobram antes de despesas administrativas e impostos.

O tempo entre a compra e a venda de uma commodity expõe as empresas à variação de cotações. Para mitigar esse risco, o mercado financeiro oferece ferramentas como contratos futuros e derivativos. Uma trading com soja em estoque pode negociar contratos futuros para se proteger de uma eventual queda no preço do grão.

Contudo, essa proteção não elimina outros riscos, como falhas na entrega, inadimplência de compradores ou atrasos em transportes. A empresa precisa de crédito e dinheiro para honrar seus compromissos. O conhecimento profundo da cadeia produtiva também gera informações valiosas para quem negocia apenas contratos financeiros, permitindo antecipar mudanças de preço.

Em Pesquería, o trabalho da Engelhart resume a essência do negócio: garantir o fornecimento de gás na quantidade e prazo necessários, a um custo que permita à usina operar. As decisões tomadas entre a interpretação do mercado e o cumprimento da entrega transformam uma rotina aparentemente monótona em um negócio de bilhões de dólares.

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