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Economias emergentes: reformas atraem investidores, mas geram insatisfação popular

29 de outubro de 2026
Economias emergentes: reformas atraem investidores, mas geram insatisfação popular

Destaques

  • •Reformas econômicas em países emergentes atraem investidores e estabilizam contas públicas, mas não melhoram a vida da população.
  • •Inflação cai e importações aumentam, mas custos de vida e desemprego persistem, gerando protestos e instabilidade social.
  • •Governos enfrentam o desafio de equilibrar a necessidade de reformas com a demanda por melhorias na qualidade de vida da população.

Reformas econômicas implementadas em diversas economias emergentes, como Argentina, Marrocos, Sri Lanka, Nigéria, Egito e Uzbequistão, têm conseguido atrair investidores e estabilizar as contas públicas, recebendo elogios de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). No entanto, essas medidas frequentemente geram insatisfação entre a população, que, apesar de ouvir falar em recuperação econômica, não percebe melhorias concretas em suas condições de vida.

Na Argentina, por exemplo, a inflação caiu drasticamente de quase 300% para cerca de 33% desde que o presidente Javier Milei assumiu o cargo em 2023. As importações foram ampliadas e os subsídios diminuíram. Contudo, para comerciantes como Gustavo Raul Perez, o custo para repor estoques triplicou, enquanto o poder de compra dos clientes diminuiu, levando-o a afirmar que "a classe média que existia há três anos não existe mais". Essa contradição entre a estabilidade macroeconômica e a dificuldade no dia a dia é um reflexo comum em economias em desenvolvimento.

Desigualdade e insatisfação social

A retirada de subsídios, a desvalorização de moedas e cortes de gastos públicos, embora necessários para evitar um "abismo" de perda de investimentos, encarecem produtos e reduzem a renda disponível. O ministro das Finanças da Nigéria alertou que não enfrentar a desigualdade é como "sentar sobre pólvora", e o banco central do Marrocos aponta que o desemprego persistente amplia a distância entre o desempenho da economia e a percepção popular.

Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, empresa de análise de riscos, destaca que o aumento dos preços de alimentos, combustíveis e energia afeta imediatamente a população, podendo levar a protestos e instabilidade. Segundo a companhia, o risco médio de agitação social no mundo atingiu o nível mais alto em quase uma década.

Um mundo em duas velocidades

No Marrocos, o investimento estrangeiro direto quase dobrou no último ano, mas o país foi abalado por protestos. O engenheiro civil Anass Sayad descreve a situação como um desenvolvimento em "duas velocidades diferentes", onde prédios comerciais modernos contrastam com a falta de atenção em áreas como educação e saúde, que, apesar de receberem mais gastos no orçamento de 2026, ainda levarão tempo para mostrar efeitos.

O Banco Mundial projeta que 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento chegarão à idade de trabalhar na próxima década, levantando dúvidas sobre a capacidade dos investimentos de gerar empregos suficientes. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que a alta dos preços de combustíveis e alimentos, somada à redução da ajuda internacional, aumenta a pressão sobre esses países.

Impacto global e desafios futuros

A insatisfação popular não se restringe a economias emergentes, com protestos ocorrendo também em países ricos devido ao aumento do custo de vida. No entanto, nações desenvolvidas possuem maior capacidade de usar recursos públicos para mitigar esses impactos. Nas economias em desenvolvimento, a inflação pesa mais porque alimentos representam uma parcela maior do cálculo do índice de preços ao consumidor.

No Sri Lanka, apesar de a crise econômica ter sido superada, vendedores como Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi lutam para manter preços acessíveis, preocupados com as despesas de seus filhos. Para muitos, a percepção é que pouca coisa mudou, apesar das reformas macroeconômicas.

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