China: excesso de produção de carros elétricos força montadoras a exportar e cortar preços

Destaques
- •Mercado automotivo chinês enfrenta a pior crise desde 2014, com capacidade de produção três vezes maior que a demanda.
- •Montadoras chinesas buscam clientes no exterior com preços agressivos, afetando mercados como o europeu e o brasileiro.
- •Governo chinês tenta gerenciar a crise, mas governos locais relutam em fechar fábricas e demitir funcionários.
O mercado automotivo chinês, um dos maiores do mundo, atravessa uma crise sem precedentes. A capacidade de produção de veículos elétricos e híbridos ultrapassa em mais de três vezes a demanda interna, levando a uma situação de excesso de oferta que força montadoras a buscar alternativas drásticas. As vendas de veículos de passeio na China caíram 22% até setembro deste ano, e a previsão para o ano todo é de 18,5 milhões de unidades, o pior resultado desde 2014. Empresas como a Skyworth Auto, que planejava produzir 100 mil unidades anuais, venderam apenas 660 veículos no mesmo período.
A situação é agravada pela forte concorrência e pela relutância de governos locais em admitir o fracasso de suas ambições na indústria. Por décadas, cidades chinesas investiram bilhões em empresas locais de veículos elétricos, visando se tornar a "Detroit da era elétrica". Agora, com a população em declínio e o avanço de tecnologias como robotáxis, a expectativa de crescimento forte e prolongado nas vendas de carros de passeio para famílias é baixa. A consolidação do setor, apontada como necessária por executivos como Mary Barra, da General Motors, ainda não ocorreu em larga escala.
Onda de exportações e preços baixos
Diante do cenário interno desfavorável, as montadoras chinesas intensificaram suas exportações. A China se tornou o maior exportador mundial de veículos em 2023, superando o Japão, e está a caminho de exportar 12 milhões de unidades neste ano, contra 1 milhão no início da década. Marcas como BYD oferecem modelos na Europa com preços significativamente inferiores aos de concorrentes tradicionais, como a Volkswagen. A ofensiva chinesa alcança mercados de renda média e alta em todo o mundo, incluindo o Brasil, onde a Jeep busca reverter a perda de mercado.
A estratégia de redução de preços no mercado interno também é acentuada. Os preços dos veículos chineses caíram quase 20% desde o início de 2023, e a margem de lucro do setor recuou para 3,6%, o menor nível em anos. Essa pressão por liquidez e participação de mercado leva a uma "concorrência irracional", como alertou o governo chinês, que teme a redução dos padrões de qualidade.
Intervenção governamental e desafios locais
O governo central chinês demonstra preocupação com a "involução" do setor e pediu às montadoras que reduzam cortes de preços e acelerem pagamentos a fornecedores. Há também uma campanha para reforçar a fiscalização da segurança dos veículos. No entanto, a situação é complexa devido à forte ligação entre governos locais e as empresas. Autoridades que promoveram a fabricação de carros relutam em interromper projetos, pois isso significaria perda de empregos e de receitas tributárias.
Empresas como a NIO receberam resgates bilionários de cidades como Hefei, que as transformaram em âncoras de parques industriais. A Xiaomi, fabricante de smartphones, obteve apoio para construir uma fábrica de carros em tempo recorde. Mesmo com dificuldades financeiras, como a BAIC Motor alertando sobre prejuízos, e a XPeng focando em robotáxis e robôs, a estrutura de apoio público-privado persiste.
A Volkswagen, por exemplo, reduziu sua capacidade de produção na China, mas mantém investimentos pesados em joint ventures para veículos elétricos, considerando o mercado chinês vital. A General Motors também prorrogou uma de suas principais joint ventures. A capacidade excedente é um desafio maior para a China do que foi em setores como aço e alumínio, devido ao grande número de empregos e ao enraizamento das fábricas nas economias locais.



