Dinheiro físico mantém relevância no Brasil apesar do avanço do Pix

Destaques
- •Especialistas defendem a coexistência do dinheiro físico e digital no Brasil, citando a diversidade social e a necessidade de alternativas em crises.
- •Apesar do Pix ser o meio de pagamento mais usado por 46% dos brasileiros, o dinheiro físico ainda responde por 43% das transações de até R$ 10.
- •A infraestrutura de transporte e custódia de valores é essencial para a economia e precisa acompanhar a digitalização sem ser desmantelada.
O avanço dos pagamentos digitais, como o Pix, transformou a relação dos brasileiros com o dinheiro, mas está longe de decretar o fim das cédulas e moedas. A convivência entre diferentes meios de pagamento, a liberdade de escolha e a necessidade de manter a economia em funcionamento, mesmo diante de falhas tecnológicas, foram temas centrais no debate Meet Point Estadão Think: o Futuro do Dinheiro na Era Digital.
O encontro reuniu Sérgio França, CEO da Prosegur Cash; Daniele Capobiango, presidente-executiva da Fenaval e ABTV; e Rafael Drumond, presidente da Ablemp. Segundo os participantes, o dinheiro físico mantém sua relevância, especialmente em transações de menor valor. O Brasil conta com aproximadamente R$ 380 bilhões em circulação.
Uma pesquisa do Banco Central indica que o Pix é o meio de pagamento mais utilizado por 46% dos entrevistados. No entanto, o dinheiro físico aparece com 22% no geral e responde por 43% das transações de até R$ 10. As diferenças sociais e geográficas do país explicam a permanência do numerário, mesmo com a expansão das tecnologias financeiras.
Complementaridade e Liberdade de Escolha
Sérgio França, CEO da Prosegur Cash, destacou que o dinheiro e os meios digitais são complementares. "Não falamos de substituição. Entendemos que o dinheiro e qualquer outro meio de pagamento são complementares", afirmou.
Rafael Drumond, presidente da Ablemp, ressaltou que preservar a diversidade de pagamentos é fundamental para evitar a exclusão de consumidores e comerciantes. A liberdade de escolha, segundo ele, é um exercício de cidadania e autonomia individual.
A importância dessa complementaridade se torna ainda mais evidente em situações de emergência, como apagões ou desastres climáticos. França citou as enchentes no Rio Grande do Sul, onde o dinheiro em espécie foi o principal meio de pagamento disponível por dias. "Quando um falha, um pode complementar o outro", explicou.
A Infraestrutura Invisível do Dinheiro Físico
Para que as cédulas cheguem aos consumidores, existe uma cadeia complexa que envolve planejamento, transporte, processamento, custódia e segurança. Daniele Capobiango, presidente-executiva da Fenaval e ABTV, explicou que essa estrutura exige investimentos permanentes e articulação entre empresas, instituições financeiras e autoridades.
"A continuidade é construída no dia a dia, e não no momento da crise", disse Capobiango. Ela alertou para o desafio de acompanhar a digitalização sem desmantelar a infraestrutura física, que continua sendo extremamente necessária. O setor de transporte de valores, que vai além dos carros-fortes, hoje engloba soluções tecnológicas e logística de produtos de alto valor.
Inovação e Integração de Serviços
A inovação aproxima o dinheiro físico dos sistemas digitais. Exemplos incluem cofres inteligentes da Prosegur que automatizam a gestão de valores no comércio e soluções que ampliam o acesso ao saque em estabelecimentos. França exemplificou o atendimento a desde pequenos comerciantes até grandes redes.
Drumond acredita que essa integração aproxima os serviços financeiros de consumidores e lojistas, especialmente em localidades com menor presença de agências bancárias. "Cada vez mais, a integração desses serviços traz uma aproximação dessa realidade, tanto em mercados de capitais mais centrais quanto locais mais afastados", afirmou.
A discussão também marcou os 50 anos do Grupo Prosegur, que ampliou sua atuação para segurança tecnológica e custódia de criptoativos. França atribuiu a capacidade de adaptação à diversificação e ao investimento em inovação, com o objetivo de tornar o mundo mais seguro.
A perspectiva não é de disputa, mas de um sistema onde diferentes soluções coexistam. "Não tem morte de um e nascimento de outro. O processo complementar fica como grande mensagem", concluiu França.



