Defesa de Daniel Vorcaro alega manipulação de dados de celular apreendido pelo STF

Destaques
- •Perícia contratada pela defesa de Daniel Vorcaro aponta inconsistências e possíveis manipulações em dados de celular fornecidos pelo STF.
- •Laudo identifica arquivos criados e modificados após a apreensão do aparelho, além de lacunas na cadeia de custódia.
- •Defesa pede acesso integral aos dados brutos e logs da ferramenta utilizada pela PF para comprovar a integridade das informações.
A defesa de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, contratou um perito que elaborou um laudo apontando diversas inconsistências e possíveis manipulações nos dados do celular do ex-banqueiro fornecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, entregue em 26 de outubro, levanta dúvidas sobre a integridade e a autenticidade das informações extraídas do aparelho, abrindo caminho para que os advogados de Vorcaro sustentem a tese de adulteração.
O perito Marcos Monteiro examinou um HD com arquivos fornecidos pelo STF e identificou lacunas na documentação da cadeia de custódia, o que, segundo ele, impede a verificação da integridade dos dados. O laudo aponta que o material entregue à defesa não permite confirmar se os dados são legítimos e se as modificações ocorreram de forma deliberada ou automática.
Inconsistências na extração e conteúdo modificável
Uma das principais alegações do laudo é a falha da Polícia Federal (PF) em informar a versão do software GrayKey utilizada para a extração dos dados, o que limitaria a compreensão das possíveis restrições da ferramenta. O perito sustenta que o arquivo fornecido pelo STF, com extensão UFDR, é derivado do processamento dos dados extraídos e está sujeito a critérios de seleção e delimitação definidos por quem o gerou.
A defesa de Vorcaro não teve acesso aos arquivos brutos originais do celular, o que seria crucial para comparar com os dados apresentados. O laudo demonstra que o arquivo UFDR admite modificações de forma relativamente simples, sem deixar sinais evidentes de adulteração. Como exemplo, o perito cita a alteração de uma mensagem atribuída a "Darlene Munroe", que passou de "Whataya mean its JB? I’m a little slow today" para "A mercadoria foi entregue hoje!!" após edição direta de um arquivo "report.xml", sem que a mudança fosse facilmente perceptível no arquivo UFDR.
Arquivos criados após a apreensão e lacunas no termo de apreensão
O laudo também identificou a criação e modificação de milhares de arquivos em datas posteriores à prisão de Daniel Vorcaro, em 17 de novembro de 2025. Foram registrados 657 arquivos modificados em 18 de novembro de 2025 e 999 entre 18 de novembro de 2025 e 14 de maio de 2026. Entre os mais de 2,1 milhões de arquivos de imagem, 436 (cerca de 0,02%) apresentaram data de modificação posterior à apreensão do dispositivo.
O documento ressalta que, embora não seja possível atribuir tecnicamente a alteração a uma ação humana deliberada, também não se pode classificá-la como automática ou inócua. Foram identificados 94 arquivos de imagem no formato HEIC com datas de criação posteriores à apreensão. As mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, segundo a PF, eram feitas por meio de prints de tela do bloco de notas.
O laudo também aponta falhas no termo de apreensão dos três aparelhos de Vorcaro (um iPhone 17, um iPad Pro e outro smartphone). O documento não descreve detalhes identificadores dos dispositivos, nem o estado em que foram apreendidos (ligado/desligado, bloqueado/desbloqueado) ou se houve isolamento de rede. As fotos do iPad e do iPhone 17 parecem ser a mesma imagem, comprometendo a individualização visual. Os lacres da apreensão foram rompidos em momento não documentado, sem registro fotográfico das embalagens.
Pedido de acesso integral e próximos passos
O relatório não comprova a adulteração, mas afirma que os arquivos fornecidos pelo STF não permitem verificar a legitimidade dos dados e a natureza das alterações. O perito ressalta que não foi possível confirmar de forma independente a correspondência entre os dados extraídos e os arquivos fornecidos para análise.
Diante das inconsistências, a defesa solicita acesso à cópia integral dos dados originalmente extraídos, aos registros técnicos e logs da ferramenta GrayKey, além de informações sobre o método de desbloqueio do iPhone e a documentação completa da cadeia de custódia. Esses elementos são considerados essenciais para esclarecer a origem das alterações e permitir uma análise independente.
Matérias originais
- Defesa faz perícia em HD de celular de Vorcaro e diz ver inconsistências · poder360.com.br



