Vida & SaúdeRelevância BR: 9/10

Cientistas brasileiros encontram possíveis hemácias fossilizadas em dinossauro de 115 milhões de anos

03 de novembro de 2026

Destaques

  • •Pesquisadores brasileiros identificaram estruturas compatíveis com glóbulos vermelhos em um fóssil de dinossauro de 115 milhões de anos.
  • •A descoberta, feita em um Aratasaurus museunacionali, pode ampliar a compreensão sobre a preservação de biomoléculas em fósseis.
  • •Especialistas levantam dúvidas sobre a origem das estruturas, mas a equipe de pesquisa defende a hipótese com base em testes químicos e mineralização.

Pesquisadores brasileiros, com participação da Universidade Regional do Cariri (URCA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmam ter identificado o que parecem ser hemácias fossilizadas em um dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos. O achado, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, pode representar um avanço significativo na compreensão sobre a preservação de tecidos moles e biomoléculas em fósseis de dinossauros.

O material analisado provém de um osso da perna de um Aratasaurus museunacionali, um dinossauro que viveu na atual Chapada do Araripe, na divisa do Ceará, Pernambuco e Piauí. Segundo os pesquisadores, este dinossauro media cerca de três metros de comprimento e pesava aproximadamente 34 kg. A preservação excepcional de seus restos ocorreu após seu corpo afundar em um ambiente aquático, onde uma camada de microrganismos o enterrou, permitindo que fosse preservado.

Evidências encontradas no fóssil

No microscópio, a equipe identificou inúmeras estruturas microscópicas dentro de canais vasculares no osso, que seriam condutos para vasos sanguíneos. A forma, o tamanho e a localização dessas estruturas eram compatíveis com glóbulos vermelhos. A suspeita foi reforçada por testes químicos que deram positivo para heme, um composto presente na hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue.

As estruturas foram mineralizadas com hausmannita, um mineral de óxido de manganês (Mn₃O₄). A mineralização é o processo pelo qual estruturas biológicas perecíveis são substituídas por compostos mais resistentes, permitindo a formação de fósseis. Os autores sugerem que essa mineralização precoce ajudou a estabilizar as estruturas biológicas microscópicas antes que fossem completamente destruídas.

Controvérsias e desafios da descoberta

Apesar das evidências apresentadas, nem todos os especialistas estão convencidos de que as estruturas sejam, de fato, vestígios de sangue. Células sanguíneas, por não possuírem a rigidez mineral de ossos e dentes, decompõem-se rapidamente após a morte, deixando poucos vestígios. Para que sobrevivam, são necessárias condições ambientais muito específicas, como a ausência de oxigênio ou a presença de minerais que estabilizem sua estrutura.

A paleontóloga Mary Schweitzer, da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA), aponta que as estruturas não correspondem à aparência esperada dos glóbulos vermelhos em animais não mamíferos. Ela explica que aves e répteis retêm núcleos em seus glóbulos vermelhos, o que deixa uma marca característica no formato da célula, algo não observado no fóssil em questão. Além disso, existe a possibilidade de que as microestruturas sejam restos de fungos ou outros micróbios que colonizaram o osso após a morte, embora a equipe de pesquisa não tenha encontrado evidências de filamentos, esporos ou biofilmes.

O dinossauro e o futuro da pesquisa

O fóssil de Aratasaurus museunacionali tem sido alvo de estudos há pelo menos 18 anos, desde sua descoberta em 2008. Curiosamente, o espécime sobreviveu ao incêndio de 2018 que destruiu parte do acervo do Museu Nacional da UFRJ, e seu nome significa, literalmente, “lagarto nascido do fogo”.

O diretor do Museu Nacional da UFRJ, Alexander Kellner, um dos autores do artigo, destacou a importância de encontrar vestígios bioquímicos associados a componentes biológicos em fósseis tão antigos. Ele ressalta que isso amplia a compreensão sobre o que pode ser preservado ao longo do tempo, permitindo investigar a história dos dinossauros para além de seus ossos e características anatômicas. A equipe de pesquisa espera que a descoberta estimule novas investigações sobre a preservação de biomoléculas em fósseis.

Receba as Melhores Notícias

Assine nossa newsletter e receba diariamente as notícias mais relevantes, sem viés político.

Edição matinal diária às 07:00 • 7 minutos de leitura • Gratuita.

Notícias Relacionadas