China recruta empresária para influenciar CEO da Nvidia, diz inteligência dos EUA

Destaques
- •Empresária chinesa Alice Huang teria sido recrutada pelo Ministério de Segurança do Estado da China para influenciar Jensen Huang, CEO da Nvidia.
- •O objetivo seria pressionar o executivo a defender a liberação de chips avançados da Nvidia para o mercado chinês, contornando restrições dos EUA.
- •Nvidia e governo chinês negam as acusações, enquanto Jensen Huang é convocado a prestar esclarecimentos no Congresso dos EUA.
A inteligência dos Estados Unidos avalia que uma empresária chinesa, identificada como Alice Huang, foi recrutada pelo Ministério de Segurança do Estado da China (MSS), principal agência de inteligência do país, para coletar informações sobre Jensen Huang, CEO da Nvidia. Segundo o The New York Times, que baseou sua reportagem em pessoas com conhecimento das operações de vigilância americanas, Alice Huang também teria o objetivo de influenciar o executivo a defender a liberação dos chips mais avançados da companhia para o mercado chinês. A avaliação de que Alice Huang trabalhava diretamente para o serviço de inteligência chinês não havia sido divulgada anteriormente.
O caso está inserido em uma investigação sobre o interesse de Pequim na tecnologia de inteligência artificial (IA) dos Estados Unidos e na influência que Jensen Huang exerce sobre as decisões de exportação de semicondutores. Os chips da Nvidia são componentes cruciais para o desenvolvimento de IA e são altamente disputados globalmente. Alice Huang, que não possui parentesco com o CEO da Nvidia, teria desenvolvido uma relação próxima com ele e mantido contato com outros executivos importantes do setor de semicondutores, incluindo dirigentes da Gigabyte, fabricante de supercomputadores.
Empresa chinesa e rede de conexões
Alice Huang, que fala inglês fluentemente, participou de conferências e jantares com executivos do setor. Ela e Jensen Huang foram fotografados juntos em Taipé, Taiwan, em 2024. Na mesma época, a empresa de Alice, a Megaspeed, iniciou uma operação de compra de chips avançados de IA que movimentou bilhões de dólares. A expansão da Megaspeed no setor de IA chamou a atenção pela magnitude dos recursos envolvidos, especialmente considerando que a companhia não tinha grande projeção anterior no segmento.
A Megaspeed faz parte de uma rede de empresas e investidores sediados em Xangai e na província de Zhejiang, na China. Esse grupo utilizou conexões com autoridades locais para expandir suas atividades, que antes se concentravam em jogos para dispositivos móveis, para o mercado de data centers. A empresa construiu centros de processamento de dados no Sudeste Asiático e passou a alugar sua capacidade computacional para a Alibaba, gigante chinesa de tecnologia. Essa estrutura poderia oferecer à China uma via indireta para acessar chips avançados da Nvidia, contornando as restrições impostas pelo governo dos Estados Unidos.
A rede também possui ligações financeiras com o setor militar chinês, através de investimentos em uma subsidiária de segurança cibernética do China Electronics Technology Group, um dos maiores fabricantes de tecnologia militar do país. Esse contexto reforça o interesse da inteligência chinesa no executivo da Nvidia, em linha com a meta de Pequim de superar os Estados Unidos como potência mundial em IA até 2030.
Inteligência chinesa e o setor de tecnologia
O Ministério de Segurança do Estado chinês (MSS) expandiu significativamente suas operações desde 2012, quando Xi Jinping assumiu a liderança do país. Após um acordo em 2015 entre Pequim e Washington para limitar operações cibernéticas, o MSS assumiu um papel mais proeminente nas atividades de espionagem chinesas. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já acusou hackers associados à agência de tentar roubar tecnologias americanas e invadir redes do país.
Pesquisadores e autoridades americanas citadas pelo jornal indicam que, em 2023, o MSS já se consolidava como um concorrente da CIA. A agência também passou a utilizar IA para identificar e traçar perfis de potenciais alvos. Atualmente, o MSS conta com uma rede estimada em centenas de milhares de agentes e atua em espionagem, contrainteligência, ataques cibernéticos e operações de informação. Peter Mattis, ex-analista de contrainteligência da CIA, afirmou que a tecnologia se tornou uma prioridade para o serviço chinês, sendo essencial para a disputa pela liderança econômica mundial.
Contestações e próximos passos
A Nvidia declarou que não compartilha informações confidenciais com clientes e que compradores de seus produtos não solicitam que a empresa pressione o governo dos Estados Unidos para alterar restrições de venda de chips à China. O porta-voz John Rizzo acrescentou que o governo chinês incentiva alternativas nacionais, como produtos da Huawei, e limita a importação de equipamentos da Nvidia para data centers. Rizzo também minimizou os encontros entre Jensen Huang e Alice Huang, classificando-os como interações comuns com empresários que fazem negócios com a companhia.
O governo chinês, por meio de Liu Chang, porta-voz da embaixada em Washington, rejeitou as acusações, classificando as informações do The New York Times como infundadas e ataques à China. Alice Huang não respondeu aos contatos do jornal, e a Casa Branca e a CIA se recusaram a comentar. Jensen Huang já defendeu publicamente a venda de tecnologia de IA para a China, argumentando que isso aumentaria a concorrência com fabricantes locais e limitaria o desenvolvimento independente chinês. Em 2025, ele convenceu Donald Trump a suspender uma proibição de vendas de chips, permitindo a comercialização de versões menos potentes. Em maio, Huang afirmou que a China não deveria ter acesso às tecnologias mais avançadas da Nvidia. Na quinta-feira (5), líderes republicanos solicitaram que Jensen Huang compareça a uma reunião reservada no Congresso dos EUA para prestar esclarecimentos sobre suas interações com Alice Huang.
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