China avalia sediar encontro entre líderes de EUA, Rússia e China

Destaques
- •Pequim cogita sediar reunião trilateral entre Xi Jinping, Donald Trump e Vladimir Putin, levantando preocupações sobre o destino da Ucrânia e a imagem da China como potência global.
- •A China reluta em discutir a desnuclearização, tema defendido por Trump, e prefere focar em redução de riscos de conflito nuclear e controle humano sobre armas.
- •A decisão de sediar o encontro, que pode ocorrer à margem da cúpula da Apec em Shenzhen, envolve riscos diplomáticos e a necessidade de equilibrar a ambição de protagonismo com a aversão a responsabilidades incertas.
A China confirmou na quarta-feira que mantém conversas sobre a possibilidade de sediar uma reunião trilateral entre os líderes da China, Xi Jinping, dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin. O encontro, que poderia ocorrer à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) na cidade chinesa de Shenzhen no fim deste mês, visa consolidar a ambição chinesa de se posicionar como uma potência global indispensável, em igualdade com os Estados Unidos.
A iniciativa, levantada pelo Kremlin, desperta temores, especialmente na Ucrânia, de que Putin possa buscar um acordo com Trump para encerrar a guerra, decidindo o destino ucraniano sem a participação de Kyiv. A China, por sua vez, reluta em oferecer uma plataforma para tal acordo, pois contradiz sua posição de que negociações de paz exigem a participação da Ucrânia e da Europa. O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, relatou que Xi Jinping expressou explicitamente que o conflito é europeu e que os europeus precisam estar à mesa, demonstrando irritação com rumores de que a China discutiria o destino da Ucrânia em Shenzhen.
Um eco histórico de Yalta
A possibilidade de uma reunião trilateral remete à Conferência de Yalta, em 1945, onde líderes dos EUA, União Soviética e Grã-Bretanha firmaram um acordo secreto prometendo direitos especiais à Moscou na China em troca de sua entrada na guerra contra o Japão. Na época, a China não esteve presente nas discussões, um fato que, segundo Xin Qiang, especialista em relações EUA-China da Universidade Fudan, é uma "lição histórica da política das grandes potências que a China jamais esquecerá".
Mais de oito décadas depois, a China se vê diante de um cenário que pode evocar esse tipo de negociação entre potências, algo que Pequim afirma repudiar. Uma reunião contemporânea envolvendo os três países com os maiores arsenais nucleares do mundo seria desconfortável para a imagem que a China busca projetar de defensora dos interesses de nações mais fracas, conforme aponta Joseph Torigian, historiador do Partido Comunista Chinês na American University.
Divergências sobre desnuclearização e riscos diplomáticos
Donald Trump manifestou o desejo de usar uma reunião trilateral para discutir a desnuclearização. No entanto, para Pequim, este tema está fora de cogitação. Sob Xi Jinping, a China abandonou sua estratégia de "dissuasão mínima" e vem expandindo seu arsenal nuclear, resistindo a impor limites ao seu desenvolvimento. O país possui cerca de 620 ogivas, em comparação às mais de 5.000 de Rússia e EUA, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, evitou responder diretamente sobre a participação chinesa em discussões de desnuclearização, afirmando que a responsabilidade principal é de Washington e que tal exigência não seria "justa, razoável nem realista". Analistas chineses sugerem, contudo, que Pequim poderia estar aberta a conversas sobre a redução dos riscos de conflito nuclear, como a melhoria de canais de comunicação durante crises e o controle humano sobre decisões nucleares.
Apesar das reservas, é improvável que Pequim recuse o encontro, segundo Ryan Hass, da Brookings Institution. A China pode querer colher os benefícios de um evento histórico, mas tem cautela quanto à responsabilidade de garantir seu sucesso. Para o Ocidente, a China tem um papel fundamental em influenciar Moscou, dada a dependência russa de Pequim. Contudo, analistas chineses sugerem que o máximo que Pequim faria seria acolher as conversas, distanciando-se da ideia de pressionar o Kremlin, agindo como "uma facilitadora do diálogo, uma fornecedora da plataforma e uma testemunha neutra".
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