Celulares transformam adolescência: pais e filhos buscam novas formas de se conectar

Destaques
- •A conectividade constante via celulares reconfigurou a adolescência, tornando-a mais complexa para jovens, pais e especialistas.
- •O uso excessivo de telas, intensificado pela pandemia, impacta a socialização, a autoestima e a relação familiar, com redes sociais ampliando a pressão por aceitação.
- •Fortalecer vínculos familiares e criar espaços de diálogo são apontados como essenciais para atravessar essa fase da vida.
A adolescência, fase já intrinsecamente complexa, tornou-se ainda mais desafiadora com a onipresença dos celulares e a hiperconectividade. Especialistas, pais e os próprios jovens concordam que crescer em um mundo digital constante redefiniu as relações interpessoais, a percepção de si e a dinâmica familiar. O aparelho celular, central na rotina dos adolescentes, alterou a maneira como se conectam com amigos, familiares e consigo mesmos, exigindo novas estratégias de convivência e diálogo.
A pandemia de Covid-19 desempenhou um papel significativo nesse cenário, interrompendo experiências sociais cruciais para o desenvolvimento adolescente justamente em um período de transição. A especialista citada na série 'Essa Tal de Adolescência' aponta que o mundo mudou, tornando a experiência de ser adolescente hoje mais difícil do que em décadas passadas. O confinamento forçado aprofundou a dependência das telas, trocando a convivência com amigos pela interação virtual.
O impacto da tela na vida social e familiar
Para muitas famílias, o celular se tornou uma ferramenta de proteção, especialmente em comunidades com altos índices de violência. A mãe Cilene relata que prefere que seu filho permaneça em casa, conectado ao aparelho, estimando que ele passe de seis a sete horas diárias em uso. Essa dependência, que começa ao acordar e se estende até a hora de dormir, levanta preocupações sobre o desenvolvimento social e a saúde mental dos jovens.
Um projeto social em Recife, com 25 anos de atuação, busca oferecer um contraponto à hiperconexão, com celulares desligados durante as atividades. A iniciativa visa desacelerar a rotina e incentivar encontros presenciais, promovendo vínculos mais fortes entre os participantes, como relata o jovem Jemerson, de 12 anos, que se sente menos tímido e mais conectado após participar do projeto.
Redes sociais e a pressão pela perfeição
As redes sociais intensificaram a busca por aceitação, multiplicando a pressão sobre a aparência e a comparação com padrões de beleza irreais. Adolescentes, especialmente meninas, sentem o impacto direto na autoestima ao se compararem com imagens idealizadas online. A adolescente entrevistada resume a experiência como "comparação. Principalmente comparação com as amigas, com as redes sociais, com tudo".
O uso frequente de filtros em fotos, muitas vezes associado a experiências de bullying e abalo na confiança, pode estar ligado a transtornos de imagem e ao aumento do risco de depressão, alertam especialistas. A educadora e psicanalista Carolina Delboni destaca que a necessidade de aprovação ganhou proporções inéditas, com o "pátio da escola" se multiplicando infinitamente no ambiente digital.
Navegando a convivência na era digital
Diante desse cenário, pais e filhos buscam novas formas de convivência. A atriz Ingrid Guimarães e sua filha Clara compartilham os desafios de manter a comunicação, enfrentando ruídos geracionais e diferenças de linguagem. Especialistas enfatizam a importância de os adultos abordarem os adolescentes com mais escuta e acolhimento, olhando para eles "com gentileza e afeto".
Em um mundo dominado por telas, algoritmos e comparações constantes, fortalecer os vínculos familiares e criar espaços seguros para conversas emergem como ferramentas essenciais para que os jovens atravessem a adolescência de forma mais saudável e conectada com a realidade.



