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Cais do Valongo e outros sítios históricos são incluídos em rede da Unesco

29 de outubro de 2026
Cais do Valongo e outros sítios históricos são incluídos em rede da Unesco

Destaques

  • •Cais do Valongo (RJ), Sociedade Protetora dos Desvalidos (BA) e Serra da Barriga (AL) foram inscritos na Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas da Unesco.
  • •A inclusão visa preservar a memória da escravidão, reconhecer a resistência negra e promover a educação para novas gerações, além de combater o racismo estrutural.
  • •A iniciativa da Unesco busca conectar lugares de diferentes países para intercâmbio de experiências, cooperação internacional e desenvolvimento de ações educativas e de pesquisa.

O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador (BA), e a Serra da Barriga, em Alagoas, foram inscritos na Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A iniciativa, criada em 2024 no âmbito do Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, busca promover a preservação de locais históricos ligados à escravidão e ao tráfico de pessoas, além de fomentar o intercâmbio de experiências e o desenvolvimento de iniciativas educativas e de pesquisa.

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil saudou a inclusão, destacando que ela contribui para a preservação e transmissão da memória da escravidão, o reconhecimento da resistência histórica da população negra e a educação das novas gerações. O Cais do Valongo, já inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco desde 2017, é um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. A Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada em 1832 em Salvador, é considerada a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo, referência em organização e solidariedade da população negra desde o século XIX. Já a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas, um símbolo de resistência à escravidão.

O que representa a Rede da Unesco

A Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas foi criada pela Unesco com o objetivo de conectar lugares de diferentes países. A intenção é promover a preservação dos locais, o intercâmbio de experiências entre comunidades locais, a cooperação internacional e o desenvolvimento de iniciativas educativas, de pesquisa e de valorização da memória. A diretora e Representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, explicou que a iniciativa busca transformar lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos.

A apresentação das candidaturas nacionais é coordenada pelas Comissões Nacionais para a Unesco, sendo o MRE o responsável no Brasil. Outros locais brasileiros já integram a iniciativa, como o Museu da Inconfidência (MG) e os Museus Casa da Hera e da República (RJ). A inclusão dos três novos sítios brasileiros é vista como um importante reconhecimento internacional de seu valor histórico e de sua contribuição para a preservação da memória da escravidão e da resistência da população negra.

Visão de historiadores e ativistas

Para o doutor em História Comparada pela UFRJ, Ivanir dos Santos, a inclusão desses sítios em iniciativas da Unesco vai além da valorização de espaços históricos. Ele ressalta que representa uma oportunidade de questionar narrativas tradicionais sobre a formação da sociedade brasileira e reconhecer o protagonismo da população negra na construção da história nacional. Segundo ele, esses locais expressam diferentes dimensões da experiência negra no Brasil, desde a violência do tráfico transatlântico até as estratégias de organização coletiva e resistência.

Ivanir dos Santos também destacou a importância desses patrimônios para a trajetória do movimento negro brasileiro, fundamental para denunciar o racismo, reivindicar direitos e combater o apagamento da memória afro-brasileira. Ele apontou que a Serra da Barriga é um símbolo de resistência, o Cais do Valongo evidencia a violência escravista, e a Sociedade Protetora dos Desvalidos demonstra a construção de formas de associação e mobilização coletiva pela população negra. O professor enfatizou que o reconhecimento desses espaços dialoga com as reivindicações contemporâneas do movimento negro por reparação histórica e igualdade racial.

Próximos passos e desafios

A valorização desses patrimônios, segundo Ivanir dos Santos, não deve se restringir ao reconhecimento institucional ou simbólico. É fundamental que seja acompanhada de políticas efetivas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão e interpretação desses lugares. Essa proteção, de acordo com ele, contribui para democratizar a memória coletiva, confrontar o racismo estrutural e reafirmar o papel histórico do movimento negro na construção de uma sociedade mais justa e plural.

O professor concluiu que o reconhecimento desses espaços ultrapassa a dimensão da preservação patrimonial, assumindo um caráter político, social e educativo. Ao valorizar a memória do Quilombo dos Palmares, por exemplo, reafirma-se que a história do Brasil foi construída não apenas pela ação dos colonizadores e elites, mas também pela resistência, trabalho e contribuições dos povos africanos e seus descendentes. A expectativa é que a inclusão na rede da Unesco amplie a visibilidade internacional dessas histórias e fortaleça as lutas por reconhecimento e reparação.

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