Brasileiros envelhecem uma década antes de europeus, aponta estudo
Destaques
- •Estudo internacional revela que declínio funcional no Brasil começa aos 70 anos, contra 80 na Europa.
- •Médico Alexandre Kalache atribui diferença a condições de vida, como acesso à saúde e alimentação.
- •Especialista defende políticas públicas e um Ministério da Longevidade para um envelhecimento com mais qualidade.
Um estudo internacional publicado na revista Plos One em agosto revelou que o envelhecimento funcional dos brasileiros começa, em média, uma década antes do que o dos europeus. A pesquisa indica que a capacidade para realizar tarefas cotidianas começa a declinar aos 70 anos no Brasil, enquanto na Europa esse processo se inicia apenas aos 80 anos.
O médico Alexandre Kalache, especialista em longevidade e autor do livro "A revolução da longevidade", considera que o envelhecimento precoce no Brasil é resultado de condições de vida desfavoráveis. Fatores como o acesso limitado a cuidados de saúde de qualidade, alimentação inadequada e a falta de prática regular de exercícios físicos contribuem para o quadro.
"As famílias não vão dar conta", alerta Kalache, referindo-se à crescente demanda por cuidados com idosos. Ele destaca que, no passado, era comum ter mais pessoas disponíveis em casa para auxiliar os mais velhos, especialmente mulheres que não estavam no mercado de trabalho. Hoje, com a maior inserção feminina na economia, essa dinâmica mudou.
Kalache defende a criação de políticas públicas intersetoriais que priorizem a autonomia e a independência dos idosos, além de oferecer suporte às famílias. Ele sugere que um possível Ministério dos Idosos, cogitado pelo governo federal, seja batizado de Ministério da Longevidade. Segundo ele, o termo "longevidade" abrange toda a sociedade nas discussões sobre o tema, e não apenas o público com mais de 60 anos, combatendo o "idadismo" – preconceito contra idosos.
Desafios do envelhecimento no Brasil
O especialista aponta que os desafios médicos relacionados ao envelhecimento mudaram. Atualmente, as principais preocupações são as doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares, que não são curáveis, mas podem ser prevenidas. A ênfase deve ser dada ao "curso de vida", pois os riscos dessas doenças se acumulam ao longo dos anos, dependendo dos hábitos de cada indivíduo.
Kalache exemplifica a disparidade do envelhecimento no Brasil ao comparar uma pessoa idosa que teve acesso a uma vida confortável, com boa alimentação, atividade física e check-ups regulares, com outra de nível educacional baixo e renda limitada. A qualidade de vida e o envelhecimento de cada uma são completamente diferentes.
A responsabilidade do Estado
Segundo Alexandre Kalache, a responsabilidade por um bom envelhecimento é do Estado, conforme estabelecido no Estatuto do Idoso. Ele ressalta que o envelhecimento precoce observado no Brasil é fruto de uma somatória de eventos ao longo da vida, evidenciado durante a pandemia de Covid-19. Muitas pessoas com menos de 60 anos, portadoras de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, morreram precocemente devido à falta de políticas públicas eficazes.
"Você precisa de políticas de Estado, políticas públicas centradas na cultura do cuidado", afirma Kalache. Ele também comentou sobre a possibilidade de um ministério voltado para os idosos, sugerindo que, se criado, ele deve ser "empoderado", com orçamento adequado e poder de articulação com outras pastas, como Educação, Trabalho e Saúde.
Próximos passos
Alexandre Kalache esteve em Brasília na sexta-feira (6/11) para lançar o livro "A revolução da longevidade". O evento de lançamento ocorreu na Livraria Circulares, em Brasília, no dia 10/11, às 19h.


