Brasil pode ter déficit de 235 mil professores até 2040

Destaques
- •Projeção do Semesp aponta para um futuro com falta de educadores na educação básica.
- •Estudantes com melhor desempenho no Enem estão cada vez menos ingressando em licenciaturas.
- •Valorização da carreira, salários e condições de trabalho são cruciais para reverter o quadro.
O Brasil pode enfrentar um déficit de até 235 mil professores na educação básica até 2040, segundo projeção do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior de SP). O termo “apagão de professores” tem sido cada vez mais utilizado para descrever a preocupação com a escassez de educadores no país, reforçada por outros estudos recentes.
O Anuário Brasileiro de Educação Básica 2026, divulgado em setembro, apontou uma redução na participação de estudantes com melhores desempenhos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) entre os ingressantes em cursos de Licenciatura. Em 2020, 22,7% dos novos estudantes desses cursos estavam entre os 20% com maiores notas no exame, percentual que caiu para 14% em 2023, o menor índice da série iniciada em 2018.
Qualidade da formação e desistência profissional
Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada no final de setembro, revelou que 10,3% dos professores plenamente qualificados do ensino fundamental e médio deixaram a profissão em 2022. Esse índice é superior à média da OCDE de 6,4%.
Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, explica que a força de trabalho docente no Brasil é majoritariamente mais velha e que as licenciaturas tendem a atrair pessoas mais velhas ou em transição de carreira. Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, ressalta que o indicador de saída reúne diversos motivos, como aposentadorias e pedidos de demissão, não significando necessariamente o abandono definitivo da docência.
No entanto, Gisele Pinheiro, diretora do Singularidades e especialista em formação de professores, considera o número preocupante, posicionando o Brasil como o quarto país com maior desistência da carreira profissional.
Profissão pouco atrativa e insatisfação docente
A qualidade dos professores em formação também é um ponto de atenção. Em 2025, apenas 20,2% dos concluintes de licenciaturas avaliados atingiram o nível adequado no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), com 42,2% ficando abaixo do nível básico. A modalidade a distância apresenta índices ainda mais preocupantes, com 53,1% dos estudantes abaixo do nível básico.
A insatisfação com as condições de trabalho é um fator chave. Apenas 22,3% dos docentes brasileiros estão satisfeitos com seus salários, contra 38,7% da média mundial, segundo a OCDE. Quanto às condições gerais de trabalho, 44,3% se sentem satisfeitos, ante 68,4% da média global.
Uma pesquisa nacional indicou que 53% dos brasileiros consideram salários maiores para professores a prioridade número um para os próximos governos. Especialistas apontam que, além da remuneração, são necessários planos de carreira atrativos e melhores condições de trabalho.
Propostas para reverter o quadro
Para reverter o cenário de escassez e desvalorização, especialistas apontam para uma série de ações. Maria Slemenson destaca a necessidade de combinar remuneração adequada, planos de carreira atrativos e melhores condições de trabalho, além do fortalecimento da gestão escolar e formação continuada.
Bárbara Born menciona a importância de melhorar as condições de atuação do professor na sala de aula para que a profissão se torne mais atrativa para os jovens. Ela também aponta problemas intrínsecos em cursos de educação a distância, que formam a maioria dos professores de pedagogia no Brasil.
As frentes de ação sugeridas pela OCDE incluem carreira e remuneração atrativas, formação inicial conectada à prática, acompanhamento no início da carreira, apoio em sala e menos burocracia. A fragmentação da jornada, com professores atuando em múltiplas escolas, é vista como um desafio adicional no Brasil.
Matérias originais
- Número de professores está reduzindo no Brasil: como reverter situação? · cnnbrasil.com.br



