Brasil busca autonomia na IA com foco em infraestrutura e ecossistemas

Destaques
- •Brasil discute como transitar de consumidor para criador de tecnologia de Inteligência Artificial.
- •Iniciativas como o programa ACATE AI First em Santa Catarina e a comparação com o PIX e o Pró-Álcool apontam caminhos para o desenvolvimento nacional.
- •O futuro da IA no país depende de investimentos em infraestrutura computacional, colaboração entre setores e políticas públicas que fomentem a inovação local.
O Brasil se encontra em um momento decisivo para definir seu papel na era da inteligência artificial (IA), com o objetivo de evoluir de um mero consumidor de tecnologia para um produtor autônomo. A discussão sobre como garantir que o país desenvolva sua própria tecnologia de IA se intensifica, especialmente em contextos eleitorais, onde promessas de modernização e competitividade são frequentes. O desafio central reside em converter o planejamento estratégico em infraestrutura robusta, capacidade tecnológica e execução eficaz.
Apesar de o país já possuir a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial desde 2024, a falta de sinergia entre pesquisadores, desenvolvedores, financiadores e compradores dificulta o avanço. Gargalos como a burocracia excessiva para colaborações entre universidades e empresas, a dependência de infraestrutura computacional estrangeira e a carência de incentivos para a instalação de data centers no Brasil são obstáculos significativos. Adicionalmente, as compras públicas, particularmente no setor jurídico, tendem a favorecer sistemas genéricos em detrimento do estímulo a soluções inovadoras desenvolvidas localmente.
Santa Catarina: um modelo de ação em IA
Em contrapartida ao debate nacional, o estado de Santa Catarina tem apresentado um modelo de ação concreta com o programa ACATE AI First. Esta iniciativa ambiciosa visa capacitar 10 mil empresas catarinenses no uso de IA como motor de inovação até 2031. O programa prioriza a orquestração do ecossistema de IA, oferecendo acesso coletivo a infraestrutura de grandes modelos, intercâmbio de experiências, comunicação especializada e formação em áreas críticas como arquitetura de escala e regulamentação.
Um conselho formado pelas principais entidades de IA está em processo de criação para alinhar esforços em formação de talentos, pesquisa aplicada e políticas públicas. Essa abordagem colaborativa, que busca um alinhamento de visão entre os diversos atores do setor, é considerada fundamental para o sucesso da iniciativa.
O que os gestores públicos podem fazer
Para que a IA transcenda o status de pauta de campanha e se torne uma realidade concreta, gestores públicos são aconselhados a tomar três decisões práticas imediatas: mapear e articular as entidades já ativas no tema, revisar as leis de compras públicas para viabilizar a aquisição de inovação, e fortalecer a interlocução especializada entre inovação e as secretarias-fim. A replicação de modelos bem-sucedidos, como o Pró-Álcool e o PIX, é vista como um caminho promissor para a construção da infraestrutura necessária para o futuro digital do país.
Soberania digital e a nova economia da capacidade computacional
A capacidade computacional emerge como um ativo estratégico na nova economia, comparável ao petróleo no século XX. A concentração dessa infraestrutura em poucas empresas e países levanta preocupações sobre autonomia tecnológica e competitividade global. A soberania digital, que abrange a autonomia sobre infraestrutura e ativos digitais, vai além do simples armazenamento de dados e é crucial para o desenvolvimento nacional. O objetivo não é o isolamento tecnológico, mas a expansão de opções e a redução de dependências excessivas, assegurando que decisões geopolíticas estrangeiras não impactem serviços essenciais no Brasil.
Iniciativas que fortalecem a capacidade computacional nacional impulsionam a pesquisa, a formação de talentos, o surgimento de startups e a geração de propriedade intelectual. A colaboração entre academia, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, provedores de infraestrutura, investidores e o setor público é vista como a chave para construir uma base sólida para a economia digital, espelhando o sucesso de modelos como o PIX, que uniu diversos atores sob a coordenação do Banco Central.
A construção de uma infraestrutura nacional de IA é um desafio que demanda cooperação. Com uma matriz energética renovável, uma comunidade científica reconhecida, um mercado interno relevante e um ecossistema de tecnologia maduro, o Brasil possui os ativos necessários. A coordenação inteligente desses elementos pode resultar em uma base sólida para a economia digital, marcando o início de uma estratégia nacional para ampliar a autonomia na era da IA, de forma similar ao que o Pró-Álcool fez para a área energética.
Matérias originais
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