Brasil: Abundância de energia renovável e o risco de ser "terreno barato" para IA

Destaques
- •O Brasil possui uma matriz energética majoritariamente renovável, um ativo valioso na era da Inteligência Artificial.
- •A lei que incentiva data centers no país exige contrapartidas como uso de energia limpa e reserva de capacidade para instituições nacionais.
- •A decisão sobre o futuro do país na IA, se será vendedor de energia ou de inteligência, está apenas começando.
O Brasil se destaca globalmente com 86,8% de sua eletricidade gerada a partir de fontes renováveis em 2025, um feito relevante em um cenário onde a Inteligência Artificial (IA) se torna um grande consumidor de energia. Enquanto big techs disputam eletricidade, o país detém um recurso cobiçado, mas a questão central é como capitalizar essa vantagem estratégica.
A disputa global por capacidade computacional é intensa, com países como os Estados Unidos e a China tratando chips como assunto de segurança nacional e utilizando a interdependência como arma. O Brasil, por sua vez, sancionou em setembro o Redata, um regime que oferece incentivos fiscais para a instalação de data centers no país.
Contrapartidas e o risco de exportar matéria-prima
A lei do Redata estabelece contrapartidas importantes para as empresas que se beneficiam dos incentivos fiscais. Entre elas, está o uso de energia limpa, eficiência hídrica no resfriamento, investimento em pesquisa com instituições brasileiras, reserva de capacidade para entidades nacionais e a destinação de pelo menos 10% do processamento para o mercado interno.
No entanto, a autora alerta para o risco de o Brasil repetir um padrão histórico de exportar matéria-prima sem agregar valor. Assim como ocorreu com o minério de ferro, o país pode fornecer a energia, a água e o terreno, enquanto os componentes essenciais (chips), os modelos de IA e as aplicações viriam de fora. A preocupação é que o Brasil se torne apenas o "terreno barato" para a IA de outros países.
A importância da regulamentação e do capital humano
O futuro da regulamentação do Redata, que depende de decisões do Poder Executivo, pode ser impactado pelo cenário político. A autora ressalta que a instabilidade regulatória pode afastar investidores, transformando a agenda de tecnologia em mais um ponto de atrito político.
O verdadeiro valor, segundo a autora, não está apenas na infraestrutura dos data centers, que empregam poucas pessoas, mas sim no ecossistema que se desenvolve ao redor deles. Isso inclui a adaptação de modelos de IA para setores como o agronegócio e a saúde, a criação de produtos em português e a formação de capital humano qualificado. A reserva de capacidade para instituições nacionais é vista como a cláusula mais crucial da lei.
A reflexão final é sobre o papel das empresas brasileiras: estão apenas alugando capacidade de processamento ou desenvolvendo a expertise para construir suas próprias soluções de IA? A eleição presidencial pode ter terminado, mas a decisão estratégica sobre como o Brasil irá se posicionar na economia da IA, se como fornecedor de energia ou como criador de inteligência, está apenas começando.
Matérias originais
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