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Eleições 2026: Como a mobilização digital garantiu a virada de Lula

30 de outubro de 2026
Eleições 2026: Como a mobilização digital garantiu a virada de Lula

Destaques

  • •Campanha de Lula inverteu resultado do primeiro turno com estratégia focada em mobilização digital e combate à abstenção.
  • •Grupos de WhatsApp como o 'Exército do Lula' reuniram milhões de pessoas, transformando simpatizantes em agentes de distribuição de conteúdo.
  • •Especialistas apontam a necessidade de profissionalizar e financiar a atuação digital para além de campanhas eleitorais.

A eleição presidencial de 2026 no Brasil registrou uma virada inédita: pela primeira vez, um candidato derrotado no primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conseguiu reverter o resultado na etapa decisiva. A vitória petista, que obteve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de seu adversário, foi marcada por uma profunda mudança nas estratégias de comunicação digital, que priorizaram a mobilização de eleitores e o combate à abstenção, em vez de focar na conquista de votos do campo adversário.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) liderou com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. A campanha de Lula, com o apoio de uma sala de situação coordenada em Brasília e liderada pelo secretário de Organização do partido, Laércio Ribeiro de Oliveira, analisou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para identificar diferenças regionais e definir onde intensificar críticas ao adversário, reforçar mensagens de esperança e concentrar esforços para estimular a participação de eleitores com potencial de abstenção.

WhatsApp como ferramenta de convocação

O intervalo reduzido entre os turnos foi determinante para a mudança de estratégia. Com pouco tempo disponível, a prioridade deixou de ser convencer eleitores do campo adversário e passou a ser transformar simpatizantes em participantes efetivos da votação. Aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, ganharam importância crucial nesse processo, funcionando como canais de convocação e organização de apoiadores. A meta era fazer com que eleitores propensos à abstenção comparecessem às urnas.

O neurocientista e futurista Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, destacou que as denominações dos principais grupos de WhatsApp, como a “Tropa do Flávio” e o “Exército do Lula”, remetiam à ideia de ação coletiva e deslocamento. Essa linguagem traduzia a passagem de uma estratégia de convencimento para outra, baseada na mobilização. “A aposta mudou, se tornou muito menos a do convencimento e muito mais a de tirar do sofá de casa o sujeito que estaria propenso a uma abstenção”, explicou.

Redes sociais e a expansão de bolhas

O canal “Exército do Lula”, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), reuniu 10,5 milhões de participantes e buscava ampliar o alcance das mensagens da campanha por meio do compartilhamento entre integrantes. Essa estratégia alterou a dinâmica das chamadas bolhas virtuais: em vez de manter comunidades fechadas, a proposta era incorporar novos participantes continuamente. O crescimento dos grupos tornou-se parte do próprio processo de mobilização, criando vínculos e estimulando o envolvimento de pessoas inicialmente afastadas da disputa.

Machado Dias analisou que a estratégia de Janones foi trazer o maior número possível de pessoas para dentro do grupo de WhatsApp, inclusive aquelas propensas a seguir sem votar, acreditando que nesse movimento elas poderiam se tornar parte ativa. A ideia era crescer ao máximo para incorporar os outros e dar um senso de urgência. O ambiente restrito desses grupos também podia reforçar a percepção de que a vitória estava próxima, favorecendo expectativas positivas sobre o resultado.

Metas diárias e a profissionalização do digital

As atividades incorporaram elementos de gamificação, com metas diárias que estimulavam a participação dos integrantes. O cumprimento das tarefas reforçava o sentimento de pertencimento e transformava apoiadores em agentes de distribuição das mensagens políticas. Essa mobilização digital ultrapassava o consumo de conteúdo e envolvia ações coordenadas, reproduzindo uma lógica algorítmica, mas dependendo da coordenação e participação direta das pessoas.

Apesar da eficiência dessas estratégias, a eleição não representou uma mudança significativa na polarização política brasileira. As redes sociais continuaram reforçando identidades e convicções preexistentes. Para Machado Dias, o cenário posterior à votação indica continuidade da polarização, embora possa haver mudanças nas lideranças conservadoras, com o bolsonarismo possivelmente perdendo força como unidade ideológica e dando espaço a novas lideranças, como Tarcísio de Freitas.

A experiência do segundo turno mostrou que é possível construir uma mobilização digital em larga escala. No entanto, transformar essa “operação de guerra” em uma estrutura permanente demanda sair da lógica da emergência contínua e do sacrifício individual. É preciso reconhecer a atuação no digital como um trabalho, um setor produtivo que demanda condições estruturais para continuar existindo de forma a privilegiar o debate democrático. Isso exige políticas de financiamento, remuneração, formação e uma arquitetura regulatória que responsabilize as plataformas e diminua a dependência delas.

O que diz a pesquisa

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ciência Política em 2025 analisou o uso das mídias sociais nas campanhas eleitorais presidenciais brasileiras de 2018 e 2022, com foco nos candidatos que disputaram o segundo turno. A pesquisa, que utilizou técnicas quantitativas e qualitativas para coletar dados de publicações no Facebook e Twitter, encontrou diferentes padrões na utilização das redes sociais. Bolsonaro optou por frequências baixas e uma estética amadora, enquanto Lula e Haddad adotaram frequências altas e um estilo profissionalizado. O estudo gerou um diagnóstico comparativo explorando os efeitos dessas práticas de campanha no engajamento digital e na comunicação política, trazendo reflexões sobre as diferentes estratégias eleitorais, suas limitações e impactos democráticos.

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