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Vitória de Flávio Bolsonaro pode afetar cooperação Brasil-China e papel no BRICS

24 de outubro de 2026
Vitória de Flávio Bolsonaro pode afetar cooperação Brasil-China e papel no BRICS

Destaques

  • •Especialistas apontam que uma vitória de Flávio Bolsonaro pode aproximar o Brasil dos EUA e reduzir a cooperação com a China.
  • •O país pode ter um papel mais passivo no BRICS, enfraquecendo a voz do bloco contra a dominância do dólar.
  • •O Brasil pode ser excluído de projetos estratégicos e ter seu desenvolvimento tecnológico e industrial afetado.

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras poderia impactar significativamente a cooperação entre Brasília e Pequim em setores estratégicos, além de alterar o papel do Brasil no BRICS. A avaliação é de especialistas consultados pelo Opera Mundi, que alertam para o risco de uma maior aproximação com Washington afetar a política externa brasileira, alinhando-a mais aos interesses norte-americanos.

Segundo Jiang Shixue, professor da Universidade Normal de Hangzhou, a China, maior parceira econômica do Brasil, buscará manter o nível atual de cooperação bilateral, independentemente do resultado eleitoral. No entanto, uma mudança na política interna brasileira não é irrelevante para os interesses chineses. O estreitamento dos laços com os Estados Unidos poderia diminuir a disposição brasileira em promover uma agenda multipolar e restringir a cooperação em áreas como telecomunicações e minerais críticos.

Jiang destacou que os EUA estão implementando a "Nova Doutrina Monroe" na América Latina por meio de subversão militar, interferência eleitoral e outras pressões. Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia tornar o papel do Brasil no BRICS mais passivo ou negativo, enfraquecendo a voz coletiva do grupo no desafio à dominância do dólar e às sanções unilaterais.

Impacto na influência chinesa e nos interesses dos EUA

Ruben Gonzalez-Vicente, professor associado de Economia Política da Universidade de Birmingham, aponta que os Estados Unidos têm dois objetivos principais: ampliar governos alinhados à sua política regional e limitar a influência chinesa. Um governo Flávio Bolsonaro poderia facilitar a agenda norte-americana, mesmo em questões onde os interesses dos dois países não coincidam.

Contudo, Gonzalez-Vicente lembrou que, durante o governo de Jair Bolsonaro, o Brasil continuou negociando com a China, apesar do alinhamento político com Donald Trump. Os vínculos econômicos bilaterais são profundos, e seria irrealista esperar que qualquer governo brasileiro excluísse completamente a China da economia nacional. Setores como o agronegócio e os exportadores de soja não teriam interesse em romper laços com Pequim, e os investimentos chineses existentes dificilmente seriam desmantelados.

O maior risco, segundo o professor, reside na possibilidade de decisões brasileiras em setores estratégicos serem orientadas por considerações geopolíticas que convêm aos EUA, mesmo que não sejam economicamente mais vantajosas para o Brasil. Isso poderia levar ao favorecimento de fornecedores alternativos, mesmo com propostas chinesas mais atraentes, e à exclusão da China de projetos de grande visibilidade ou politicamente sensíveis.

O papel do Brasil no desenvolvimento tecnológico e na autonomia regional

Tings Chak, coordenadora para a Ásia do Instituto Tricontinental, ressalta a importância do Brasil por sua capacidade industrial, recursos estratégicos e participação em mecanismos de integração regional, que ampliam sua autonomia internacional. O país é um articulador chave do BRICS e do Mercosul, abriga a maior parte da Amazônia e possui recursos minerais e capacidades industriais próprias.

Um Brasil comprometido com a integração latino-americana e a cooperação Sul-Sul amplia a margem de ação de toda a região. Por outro lado, um Brasil submetido à estratégia estadunidense faria o contrário. Chak também destaca a importância dos recursos minerais brasileiros para a disputa tecnológica entre EUA e China, ressaltando que não basta possuir minerais críticos, mas é preciso desenvolver capacidade de processamento e tecnologias próprias.

Uma aproximação com Washington poderia afetar não apenas as relações com Pequim, mas também corroer as possibilidades de desenvolvimento tecnológico e industrial do próprio Brasil. Chak contrastou os governos Lula e Jair Bolsonaro, mencionando que o governo anterior provocou tensões diplomáticas com a China, mesmo mantendo relações comerciais, o que demonstrou que interesses econômicos não garantem parceria estratégica.

O futuro do BRICS e a disputa geopolítica

O futuro do BRICS é uma das preocupações diante de uma possível mudança na política externa brasileira. Uma vitória de Flávio Bolsonaro não implicaria necessariamente a saída do país do grupo, mas poderia alterar a disposição de Brasília em promover iniciativas de cooperação. O enfraquecimento da participação brasileira poderia ocorrer mesmo sem uma saída formalizada.

Chak considera que o papel original do Brasil no BRICS estava ligado à ampliação de sua autonomia internacional e à contribuição para uma ordem mundial menos concentrada no poder dos EUA. A existência de diferentes centros de poder abre espaço para projetos nacionais de desenvolvimento e maior soberania, mas isso depende das forças políticas e sociais que direcionam o processo.

As eleições brasileiras ocorrem em um momento de intensificação da disputa EUA-China e da ascensão da extrema direita na América Latina. Um retorno da família Bolsonaro ao Executivo poderia comprometer avanços na integração regional, cooperação Sul-Sul e a busca por maior autonomia diante de pressões externas. A pesquisadora enfatiza a importância política de Lula em seu governo, que tem contribuído para ampliar a autonomia internacional do Brasil, fortalecer o BRICS e aprofundar relações estratégicas com países como a China, representando a possibilidade de um Brasil soberano.

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