Valuation de startups de tecnologia no Brasil cai de 7 para 4 vezes o faturamento

Destaques
- •Múltiplo de receita em aquisições de empresas de tecnologia no Brasil caiu de 7 para 4 vezes o faturamento anual.
- •Queda no valuation sinaliza esgotamento de ciclo e migração de capital para inteligência artificial, segundo estudo.
- •Participação de tecnologia em transações no país subiu de 10% em 2006 para 25% em 2025.
O mercado de capital privado no Brasil observou uma significativa desvalorização em aquisições de empresas de tecnologia. A mediana do múltiplo de receita pago em transações de M&A (fusões e aquisições) de companhias brasileiras do setor caiu de sete vezes o faturamento anual entre 2020 e 2021 para quatro vezes no período de 2024 a 2026. Isso indica que os compradores estão desembolsando, em média, o equivalente a quatro anos de receita anual, uma redução considerável em relação ao ciclo anterior.
O estudo, realizado pelo escritório de assessoria financeira Ártica e pelo BZCP Advogados em parceria com o Insper, mapeou 30 operações de venda total ou parcial de empresas de tecnologia, que movimentaram R$ 3 bilhões. Segundo Marcelo Shima, sócio do BCZP, a queda no valuation – o valor atribuído a uma empresa – sinaliza o fim de um ciclo impulsionado pelo mercado de software as a service (SaaS) e o início de um novo, focado em inteligência artificial, para onde o capital estaria migrando.
O ciclo de investimentos em tecnologia
Durante a pandemia, juros baixos e a corrida pela digitalização impulsionaram investimentos em startups, inflando os valores de fusões e aquisições no setor de tecnologia globalmente e no Brasil. A professora do Insper, Andreia Minardi, ressaltou a importância da consolidação de dados sobre M&A, pois a venda de empresas é uma das principais alternativas de saída para investidores de venture capital, respondendo por mais de 80% das saídas nesse universo.
O setor de tecnologia tem ganhado cada vez mais espaço no mercado privado. Dados da S&P Capital IQ, analisados pela Ártica, mostram que a participação de empresas de tecnologia no total de transações no país saltou de 10% em 2006 para 25% em 2025. No ano passado, a tecnologia da informação se consolidou como o setor com o maior volume de operações.
Particularidades e mecanismos de negociação
As negociações no segmento de tecnologia apresentam particularidades, como empreendedores mais jovens que conduzem pessoalmente os processos de venda. A integração pós-aquisição também pode ser mais complexa devido à dependência de profissionais com habilidades específicas e culturas organizacionais distintas.
Um mecanismo comum é o pagamento em formato de earn-out, onde parte do valor é condicionada ao desempenho futuro da empresa. Em 64% das operações analisadas, houve esse tipo de pagamento. No entanto, a parcela do valor pago via earn-out diminuiu de 29% no período de 2020-2021 para 17% entre 2024 e 2026. Lincoln Shiroma, sócio da Ártica, sugere que essa redução pode ser resultado de litígios frequentes sobre o cumprimento de metas e o pagamento das parcelas variáveis.
“O earn-out é uma forma de incentivar o fundador a permanecer na empresa e ajudar na integração. Mas depois da venda, normalmente o empreendedor deixa de controlar todas as variáveis que determinam o cumprimento das metas estabelecidas”, explicou Shiroma.



