TikTok sabia de exploração sexual de crianças em lives, dizem ex-funcionários

Destaques
- •Documentos judiciais revelam que ex-funcionários alertaram a direção do TikTok sobre exploração sexual de menores em transmissões ao vivo.
- •Falhas em ferramentas de proteção e o potencial dano à saúde mental de jovens também foram apontados, com a empresa obtendo receita de presentes virtuais em lives irregulares.
- •O TikTok contesta as acusações, afirmando que os documentos apresentam uma versão distorcida e parcial do histórico da empresa.
Funcionários do TikTok alertaram repetidamente a direção da empresa sobre riscos de exploração sexual de crianças e adolescentes na plataforma, mas não receberam respostas consideradas suficientes para resolver os problemas. Documentos judiciais divulgados nesta terça-feira (20) também mostram que a rede social tinha conhecimento de falhas em ferramentas de proteção e de possíveis danos à saúde mental de jovens. As informações foram reveladas pela rádio pública americana NPR e incluem depoimentos de ex-funcionários apresentados à Justiça dos Estados Unidos em março de 2026, como parte de processos que acusam o TikTok e outras redes sociais de prejudicar menores de idade.
Exploração sexual e receita em lives
Um dos principais problemas envolve o TikTok Live, ferramenta de transmissões ao vivo da plataforma. Segundo os depoimentos, crianças e adolescentes apareciam em conteúdos de natureza sexual e recebiam pagamentos de espectadores por meio de presentes virtuais, que podem ser convertidos em dinheiro. A empresa também ficava com uma parcela dos valores movimentados nessas transações, o que levantou questionamentos sobre um possível benefício financeiro decorrente da exploração de menores.
Reagen Maher, que ocupou cargos de liderança nas equipes de segurança e investigação do TikTok entre 2021 e 2024, afirmou ter passado meses tentando convencer executivos a tomar medidas contra a exploração sexual de menores. Em uma conversa interna apresentada à Justiça, a ex-funcionária relatou que parte dos responsáveis pela plataforma não considerava os danos graves o suficiente para justificar novas ações.
Uma investigação interna identificou 112 mil transmissões ao vivo com a presença de crianças e adolescentes de 13 a 15 anos somente em janeiro de 2022. O número considera lives com a participação de menores e não significa que todas apresentavam conteúdo sexual, mas ainda assim identificou riscos de aliciamento por adultos e produção de material de abuso sexual infantil. Maher afirmou que a direção já conhecia as denúncias antes de uma investigação da Forbes, publicada em 2022, revelar que menores utilizavam o TikTok Live para realizar apresentações sexualizadas em troca de presentes.
Falhas em ferramentas de proteção e algoritmo
Os depoimentos revelaram outros problemas nas ferramentas criadas para proteger crianças e adolescentes. Segundo Maher, menores conseguiam acessar funcionalidades destinadas a adultos ao criar contas usando credenciais do Google, Facebook ou Instagram. A brecha era conhecida pela liderança do TikTok, conforme seu relato.
Outra falha envolvia o Family Pairing, ferramenta lançada em 2020 para permitir que pais e responsáveis supervisionem contas de adolescentes. Uma conversa interna de 2021 mostrava que existia um link oculto pelo qual os jovens conseguiam desvincular suas contas da supervisão parental. Um gerente da equipe de bem-estar digital chegou a questionar a utilidade da ferramenta diante dessa possibilidade.
Os documentos também indicam que a empresa evitou realizar pesquisas que poderiam revelar a quantidade de crianças com menos de 13 anos na plataforma. Em uma conversa de 2018, executivos demonstraram preocupação de que os resultados de uma pesquisa sobre a idade dos usuários fossem solicitados pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC), devido à lei americana COPPA (Children's Online Privacy Protection Act).
Além disso, Eric Han, ex-chefe de segurança do TikTok, relatou preocupações sobre o funcionamento do algoritmo de recomendações desde 2020. Segundo ele, o sistema poderia levar usuários a consumir repetidamente vídeos sobre assuntos prejudiciais, incluindo automutilação e suicídio. Um relatório interno daquele ano apontava riscos relacionados à forma como esses conteúdos eram apresentados a menores.
Histórico de processos e multas
As novas revelações fazem parte de uma disputa judicial iniciada em 2022 nos Estados Unidos, que reúne centenas de ações contra TikTok, Meta, Google e Snap por supostos danos causados a crianças e adolescentes. A exploração de menores por meio das transmissões ao vivo já havia motivado uma ação específica no estado americano de Utah, em junho de 2024, onde a Justiça rejeitou um pedido da plataforma para encerrar o caso.
Em setembro de 2026, um juiz do Texas decidiu que o TikTok havia violado uma lei estadual de proteção ao consumidor ao apresentar informações enganosas sobre mecanismos de segurança infantil. Em outubro, o Canaltech revelou que o TikTok foi acusado de oferecer uma ferramenta de segurança falsa para jovens usuários, com testes de uma versão inoperante do Algo Refresh.
Os processos americanos também resultaram em acordos financeiros. Em maio deste ano, o TikTok concordou em pagar US$ 8 milhões para encerrar uma ação movida por um distrito escolar do Kentucky. Em setembro, a empresa fechou outro acordo com o estado do Alabama. No Brasil, a empresa também enfrenta questionamentos sobre a proteção de menores. Em agosto de 2026, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aplicou uma multa de R$ 153,7 milhões à ByteDance por irregularidades no tratamento de informações pessoais de crianças e adolescentes.
O que diz o TikTok?
Procurado pela NPR, o TikTok inicialmente não apresentou respostas específicas aos questionamentos sobre as denúncias, limitando-se a indicar políticas de segurança publicadas pela empresa. Após a divulgação da reportagem, porém, o porta-voz Nathaniel Brown contestou a interpretação dos documentos. Segundo ele, as acusações foram selecionadas de maneira parcial por advogados envolvidos nos processos e apresentam uma versão distorcida do histórico da empresa e de seu compromisso com a segurança dos jovens.
O TikTok também afirmou possuir mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro alinhados a padrões internacionais. A empresa, no entanto, não esclareceu à NPR se comunicou às autoridades americanas todos os casos identificados de material de abuso sexual infantil nas transmissões ao vivo, nem se bloqueou as contas responsáveis pelos pagamentos ou qual foi o destino das receitas associadas aos conteúdos irregulares. Os novos depoimentos ainda não foram apresentados a um júri nos processos em questão, portanto, as acusações sobre a responsabilidade da empresa e de seus dirigentes continuam sujeitas à análise judicial.



