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Teranóstica: Nova fronteira no tratamento de câncer combina diagnóstico e terapia

31 de outubro de 2026
Teranóstica: Nova fronteira no tratamento de câncer combina diagnóstico e terapia

Destaques

  • •Abordagem teranóstica une imagem e tratamento direcionado para o câncer, com exemplos em tireoide, próstata e tumores neuroendócrinos.
  • •Avanços incluem identificação de novos alvos como o PSMA e desenvolvimento de radioisótopos, com pesquisas nacionais focando em ampliar o uso.
  • •Desafios como a disponibilidade de radioisótopos e a adaptação para fases iniciais da doença são abordados, com o Reator Multipropósito Brasileiro como esperança de autonomia.

A teranóstica, uma abordagem inovadora no tratamento do câncer, combina exames de imagem com terapias direcionadas, unindo os conceitos de terapia e diagnóstico. Seu exemplo mais antigo remonta à década de 1940, com o uso de iodo radioativo no tratamento do câncer de tireoide. O método funciona identificando uma característica biológica específica nas células tumorais, à qual uma molécula é ligada. Essa molécula permite visualizar a localização do tumor por meio de exames de imagem e, posteriormente, direcionar um material radioativo para destruir as células cancerosas.

Os avanços recentes na teranóstica são impulsionados pela descoberta de novos alvos moleculares e pelo desenvolvimento de radioisótopos mais eficazes para tratamento. Além do câncer de tireoide, a abordagem já demonstra resultados promissores em tumores neuroendócrinos e no câncer de próstata. Um dos alvos mais estudados é o PSMA (Antígeno Específico de Membrana Prostática), uma proteína encontrada em maior quantidade nas células tumorais da próstata. Exames como o PET-CT podem identificar a captação do PSMA por lesões específicas, permitindo o direcionamento de radiofármacos como o lutécio-177 para as áreas afetadas.

O que é a teranóstica e como funciona?

A teranóstica se baseia na premissa de que a mesma característica molecular que pode ser visualizada em exames de imagem também pode ser usada como um ponto de ancoragem para a entrega de radiação terapêutica. Uma molécula é desenvolvida para se ligar a um alvo específico nas células cancerosas. Essa molécula pode ser marcada com um radioisótopo que emite raios gama, permitindo a visualização da localização e extensão do tumor em exames como o PET-CT. Se o tumor apresentar o alvo em quantidade suficiente e o paciente for elegível, a mesma molécula pode ser conjugada a um radioisótopo que emite radiação beta, como o lutécio-177, para tratar o câncer.

Essa abordagem oferece uma medicina mais personalizada, pois a seleção do alvo e do paciente é crucial. No entanto, a intensidade da captação do alvo pode variar significativamente entre diferentes tumores e até mesmo entre lesões distintas em um mesmo paciente. Pesquisas atuais buscam correlacionar a intensidade da captação de radiofármacos com a previsão de resposta ao tratamento.

Avanços e aplicações atuais

O desenvolvimento de novos alvos e radioisótopos tem expandido as aplicações da teranóstica. O PSMA é um exemplo notável, com exames PET-CT direcionados a ele auxiliando na identificação de lesões de câncer de próstata e na avaliação da intensidade da captação. Essa informação é vital para selecionar pacientes que se beneficiarão do tratamento com lutécio-177 direcionado ao PSMA.

O médico Marcelo Araújo Queiroz, gerente de Medicina Nuclear e Teranóstico do Einstein, destaca a importância da imagem no tratamento moderno e ressalta que nem todos os cânceres de próstata expressam o PSMA. A teranóstica também é aplicada em tumores neuroendócrinos, utilizando radiofármacos como o lutécio-DOTATATO.

Projetos de pesquisa e desafios no Brasil

No Brasil, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera), financiado pela Fapesp, tem investigado a presença do PSMA em diversos tumores. Os estudos, que avaliaram mais de mil pacientes, revelaram variações na captação do marcador, tanto entre pacientes quanto dentro de tumores de uma mesma pessoa. O pesquisador principal, Carmino Antônio de Souza, professor da Unicamp, aponta que o PSMA pode estar relacionado à neoangiogênese e ser encontrado em outros tipos de câncer além do de próstata.

Um dos principais desafios para a expansão da teranóstica no Brasil é a disponibilidade e o custo dos radioisótopos, muitos dos quais precisam ser importados. A expectativa é que o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), previsto para 2030, possa suprir essa demanda, aumentando a produção nacional de radioisótopos como o lutécio-177 e garantindo maior autonomia ao país.

Outras questões em aberto incluem a padronização da dosimetria (ajuste da dose de radiação conforme a absorção individual) para definir o número de ciclos de tratamento e a combinação da teranóstica com outras modalidades terapêuticas, como imunoterapia e terapias-alvo. A aplicação da teranóstica em fases mais precoces do câncer também é uma área de pesquisa ativa, dependendo de um maior conhecimento sobre a biologia tumoral e o desenvolvimento de novos traçadores e radiofármacos.

Considerações sobre toxicidade e acompanhamento

A teranóstica, apesar de direcionada, pode afetar tecidos saudáveis. Glândulas salivares, por exemplo, podem captar radiofármacos direcionados ao PSMA, levando à xerostomia. Rins e medula óssea também requerem acompanhamento. Para mitigar esses efeitos, estratégias como a administração de aminoácidos e o estímulo à produção de urina são empregadas em alguns tratamentos, como no caso do lutécio-DOTATATO para tumores neuroendócrinos.

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