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Surto de sarampo nos EUA: Brasil intensifica vigilância e vacinação

21 de outubro de 2026
Surto de sarampo nos EUA: Brasil intensifica vigilância e vacinação

Destaques

  • •EUA enfrentam o pior surto de sarampo em mais de 30 anos, com mais de 4,4 mil casos e três mortes, associado a discursos antivacinação.
  • •Brasil mantém certificação de área livre de sarampo, mas intensifica ações de vigilância e vacinação devido ao aumento de casos nas Américas.
  • •Recomendações antivacina nos EUA, como fracionamento da tríplice viral e descontinuação da vacina contra hepatite B em recém-nascidos, geram preocupação e desinformação.

Os Estados Unidos atravessam o pior surto de sarampo em mais de três décadas, com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes este ano. A situação é amplamente atribuída a políticas e discursos antivacinação do governo Donald Trump, que levaram a mudanças no calendário vacinal e a uma redução na confiança da população. Mais de 98% dos infectados não estavam totalmente vacinados.

O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, Eder Gatti, avalia que os retrocessos nos EUA ameaçam todo o continente americano. Ele critica a postura do governo americano, que, segundo ele, chancela discursos negacionistas e tem um secretário de Saúde declaradamente antivacina. Gatti ressalta que a vacina contra o sarampo é de bloqueio e que o descontrole de casos nos EUA está diretamente ligado ao crescente discurso negacionista.

Ameaça à certificação brasileira

O aumento da ocorrência de sarampo em outros países pressiona o Brasil, que registrou 61 casos este ano, a maioria importada. O país mantém a certificação de área livre de sarampo, conquistada em 2016 e perdida em 2019 devido à reintrodução da doença, mas sua manutenção é desafiadora. O diretor do PNI lembra que a reconquista do certificado em 2024 foi resultado de um trabalho coordenado entre Ministério da Saúde, estados e municípios para melhorar a vigilância e os índices de vacinação.

Em 2023, a cobertura da tríplice viral no Brasil foi de 88% (1ª dose) e 66% (2ª dose). Em 2024, as taxas preliminares subiram para 95% (1ª dose) e 80% (2ª dose), demonstrando um esforço para manter a proteção coletiva.

Mudanças políticas e científicas nos EUA

Em agosto, o governo americano reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados para crianças e propôs separar a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba, rubéola) em três doses distintas. Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que essas recomendações são políticas, sem base científica, e inviáveis, já que as vacinas individualizadas não são fabricadas há quase 20 anos. Ele alerta que a confusão gerada pela divergência entre órgãos governamentais e entidades como a Academia Americana de Pediatria prejudica a confiança na vacinação.

Outra decisão controversa foi a suspensão da vacina contra hepatite B para todos os recém-nascidos, recomendada apenas para casos de alto risco. Cunha observa que, em maternidades particulares no Brasil, pais já estão recusando a vacina ao nascer. Ele explica que, enquanto em adultos a infecção pelo vírus B tem 90% de chance de não se tornar crônica, em crianças essa chance de cronificação é de 90%, podendo levar a cirrose e câncer de fígado.

Desinformação e custos de vigilância

A desinformação sobre vacinas, como a associação entre vacinas e autismo (já descartada por estudos científicos), também contribui para a queda na cobertura vacinal. O diretor da SBIm destaca que o sarampo é altamente transmissível e a imunidade coletiva, com 95% de cobertura vacinal, é essencial para proteger os mais vulneráveis, como recém-nascidos e imunocomprometidos.

A vigilância no Brasil tem respondido rapidamente aos casos suspeitos para bloquear a transmissão, mas o esforço tem um custo elevado. Em São Paulo, quase 4 milhões de doses extras de vacina foram aplicadas este ano. O diretor da SBIm alerta para a complacência, a falsa sensação de segurança que surge quando uma doença se torna rara devido ao sucesso da vacinação, levando as pessoas a acreditarem que não precisam mais se vacinar.

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