Rússia busca aliados na África com cúpula e expansão militar

Destaques
- •Rússia sedia terceira Cúpula Rússia-África em Moscou, buscando fortalecer laços e contrariar isolamento ocidental.
- •Países africanos adotam "não alinhamento diversificado", buscando segurança, suprimentos agrícolas e investimento em energia.
- •O Africa Corps, ligado ao Ministério da Defesa russo, expande atuação em segurança e treinamento militar no continente.
A Rússia intensifica sua influência global ao sediar a terceira Cúpula Rússia-África em Moscou, buscando consolidar laços com o continente em meio à prolongada guerra na Ucrânia. O presidente Vladimir Putin apresentou a Rússia como um parceiro alternativo ao Ocidente, acusando potências ocidentais de exploração colonial e de usar a dívida para frear o desenvolvimento africano. Putin defendeu um modelo de cooperação russa que visa o prosperidade mútua através de laços comerciais e tecnológicos mais estreitos, afirmando que as empresas russas focam na criação de empregos locais e receitas fiscais.
Expansão da influência russa na África
A cúpula contou com a participação de delegações de 48 dos 54 países africanos, com 22 representados por chefes de Estado, um aumento em relação às edições anteriores. Essa visibilidade é crucial para Moscou combater o crescente isolamento internacional e as sanções ocidentais. Especialistas apontam que a imagem de Putin ao lado de líderes africanos pode ter maior impacto na percepção global do que os acordos firmados, sendo utilizada para moldar narrativas no Sul Global.
No entanto, os governos africanos não estão optando por um único lado, mas sim adotando uma estratégia de "não alinhamento diversificado", mantendo relações com múltiplos parceiros. As motivações variam, incluindo a busca por apoio em segurança, suprimentos agrícolas, investimento em energia e respaldo diplomático. Essa competição internacional também é utilizada pelos países africanos para garantir melhores condições comerciais com seus parceiros.
Laços de segurança e a atuação do Africa Corps
A Rússia tem expandido sua presença militar em países como Mali, Burkina Faso e Níger, onde governos militares buscaram apoio após romperem laços com parceiros ocidentais. A atuação militar russa agora é centralizada no Africa Corps, uma organização paramilitar que assumiu as operações do grupo Wagner após sua rebelião em 2023. O Africa Corps opera sob o Ministério da Defesa russo e sua inteligência militar, focando em treinamento, assessoria e proteção de locais estratégicos.
Presenças confirmadas do Africa Corps incluem Burkina Faso, República Centro-Africana (RCA), Guiné Equatorial, Líbia, Mali e Níger. Instrutores militares russos também foram relatados em outros países. Moscou também busca uma posição naval no Mar Vermelho, com uma proposta de instalação no Sudão. Os resultados dessa atuação variam: no Mali, houve sucesso na retomada de Kidal, mas a insegurança piorou; na RCA, o governo se consolidou, mas a insegurança persiste.
Comércio e cooperação econômica limitada
A presença política e de segurança da Rússia na África não se reflete em seu volume comercial com o continente, que atingiu cerca de $27 bilhões em 2025, abaixo da meta de $40 bilhões estabelecida em 2019. A China e a União Europeia são parceiros comerciais significativamente maiores, com volumes de comércio em torno de $348 bilhões e $395 bilhões, respectivamente. A Rússia busca atingir a meta de mais de $50 bilhões em comércio.
A agricultura é uma área de laços comerciais mais sólidos, com a Rússia exportando volumes expressivos de produtos agrícolas e fertilizantes. A energia também é um foco, com a estatal nuclear russa Rosatom construindo uma usina no Egito. Putin também promoveu a cooperação digital e a produção local de medicamentos e vacinas, mas a concretização dessas propostas depende de investimentos e capacitação.
Exportações de armas e recrutamento controverso
A Etiópia ilustra a capacidade russa de fornecer armamentos avançados, com a aquisição de caças Su-35 e sistemas de defesa antiaérea S-400, apesar das sanções ocidentais. No entanto, as exportações de armas russas como um todo têm diminuído significativamente. Paralelamente, surgem preocupações com o recrutamento de africanos para as forças militares russas, com relatos de engano, coerção e dificuldades econômicas, que em alguns casos equivalem a tráfico de pessoas. A Rússia nega envolvimento em recrutamento ilegal, afirmando que estrangeiros podem se alistar voluntariamente.
A cúpula resultou em uma declaração conjunta, um acordo sobre inteligência artificial e um plano de ação Rússia-África até 2029. A Comissão da União Africana e a Rússia também assinaram um plano de cooperação em diversas áreas. A efetividade desses acordos dependerá de financiamento, responsabilidade institucional e prazos definidos. Governos africanos seguem navegando em um cenário internacional complexo, utilizando suas opções para obter melhores acordos com seus parceiros.
Matérias originais
- Rússia mira influência na África enquanto guerra na Ucrânia continua · cnnbrasil.com.br



