Bradesco e outros bancos: analistas divergem sobre impacto da economia e eleições

Destaques
- •Ações do Bradesco caíram quase 40% após as eleições, mas Morgan Stanley mantém recomendação de compra.
- •Safra rebaixa Banco do Brasil e adota cautela com Bradesco e Itaú, citando riscos de desaceleração econômica.
- •Investidores buscam oportunidades em dividendos e ações defensivas em meio a cenário desafiador para a Bolsa.
A semana foi marcada por revisões nas recomendações de ações de grandes bancos brasileiros, com destaque para a forte queda das ações do Bradesco (BBDC4), que acumularam um tombo de quase 40% desde o segundo turno das eleições presidenciais em 25 de outubro. Apesar do desempenho negativo, o Morgan Stanley avalia que a reação do mercado foi exagerada e pode ter aberto uma oportunidade de compra, mantendo a recomendação para os papéis, embora tenha reduzido o preço-alvo. O banco norte-americano destaca que o Bradesco negocia a apenas 0,7 vez seu valor patrimonial, um patamar próximo das mínimas da última década, e com um desconto de 62% em relação ao Itaú (ITUB4), diferença que não se justifica pela rentabilidade.
Rebaixamento e cautela no setor bancário
Em contrapartida, o Safra acendeu um sinal de alerta para o setor bancário brasileiro, citando a perspectiva de desaceleração econômica em 2027. Analistas do Safra revisaram suas recomendações, rebaixando o Banco do Brasil (BBAS3) de neutro para venda e cortando o preço-alvo. O Bradesco passou de compra para neutro, com preço-alvo reduzido, e o Itaú também perdeu a recomendação de compra, passando para neutro. O Safra aponta riscos de enfraquecimento do crédito, aumento da inadimplência e deterioração da qualidade dos ativos, atribuindo a combinação de juros elevados, menor espaço para gastos públicos e riscos de recessão como fatores de pressão para os resultados dos bancos.
O Santander Brasil também registrou queda de 28% no lucro líquido no terceiro trimestre, com retorno sobre o patrimônio mais baixo, em 11,9%. O presidente do Santander Brasil, Gilson Finkelsztain, admitiu que os números estão abaixo da rentabilidade buscada, mas considerou o cenário macroeconômico e o processo de rebalanceamento do banco.
Oportunidades em dividendos e ações defensivas
Diante de um cenário mais desafiador para a Bolsa brasileira, investidores buscaram oportunidades em dividendos e ações com características defensivas. A Ágora Investimentos atualizou sua carteira recomendada de dividendos para novembro, com cinco ações que apresentam estimativas de retorno em proventos de até 12% em 2026. A principal mudança foi a entrada da Telefônica Brasil (VIVT3), dona da Vivo, que combina geração consistente de caixa e menor sensibilidade às oscilações da economia. A seleção inclui ainda Copasa (CSMG3), Itaú (ITUB4), Caixa Seguridade (CXSE3) e ISA Energia (ISAE4).
A XP, por sua vez, adotou uma postura mais cautelosa, reduzindo sua recomendação para ações brasileiras de compra para neutra, diante dos riscos de desaceleração econômica e juros elevados por mais tempo. Apesar disso, a XP ainda projeta o Ibovespa (IBOV) aos 200 mil pontos no fim de 2027. A corretora identificou oportunidades em dez empresas, com preferência por companhias de qualidade, boas pagadoras de dividendos e exportadoras, com menor exposição ao endividamento elevado.
Resultados do 3º trimestre e perspectivas futuras
Os três principais bancos privados de varejo do País – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil – registraram lucro combinado de R$ 22,61 bilhões no terceiro trimestre, um crescimento de 2,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Itaú seguiu como o mais resiliente, com lucro líquido de R$ 12,617 bilhões e RoE de 23,6%, demonstrando disciplina na gestão de risco e de custos. O Bradesco apresentou crescimento sequencial do lucro líquido, a R$ 7,1 bilhões, mas viu seu retorno sobre patrimônio cair para 15,6%, com o presidente Marcelo Noronha reconhecendo o quadro macro complexo e a necessidade de cautela.
O contexto pós-eleitoral reforça um cenário de taxas de juros elevadas por um período prolongado, aumentando a atratividade de negócios bancários com lucros previsíveis e forte geração de caixa. Analistas do Citi apontam que a falta de sinais de ajuste fiscal significativo por parte do governo pode complicar a redução da Selic, atualmente em 13,75% ao ano. O mercado acompanha de perto os próximos passos do governo e as decisões do Banco Central quanto à política monetária.



