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Relicário lança "A Mulher Nua", romance transgressor de Armonía Somers

31 de outubro de 2026
Relicário lança "A Mulher Nua", romance transgressor de Armonía Somers

Destaques

  • •Editora Relicário lança no Brasil "A Mulher Nua", obra de 1950 da uruguaia Armonía Somers, que aborda desejo, sexualidade feminina e repressão.
  • •O romance, publicado sob pseudônimo, escandalizou por sua abordagem feminista e surrealista, explorando temas como violência masculina e opressão no casamento.
  • •A editora independente aposta em resgatar autoras negligenciadas, com planos de reeditar Cassandra Rios e lançar novas obras latino-americanas.

A editora Relicário acaba de lançar no Brasil "A Mulher Nua", romance transgressor da escritora uruguaia Armonía Somers (1914–1994). Publicado originalmente em 1950, o livro causou escândalo nos circuitos literários de Montevidéu por sua abordagem feminista e surrealista do desejo e da sexualidade feminina. A obra narra a jornada de Rebeca Linke, que aos 30 anos corta a própria cabeça, recoloca-a e sai andando por uma floresta, provocando reações violentas em moradores locais obcecados por sua captura.

A narrativa explicita simbolicamente o desejo e a liberdade feminina, ao mesmo tempo em que expõe a repressão religiosa, a violência masculina, o estupro conjugal, a opressão no casamento e as diversas tentativas de controle do corpo feminino. Publicado sob pseudônimo, críticos chegaram a especular que o romance teria sido escrito por um homem, dada a ousadia do texto. A autora, Armonía Locino, era pedagoga com carreira na educação e colaborou com a UNESCO e a Nações Unidas.

O resgate de autoras negligenciadas

A publicação de "A Mulher Nua" no Brasil faz parte de um esforço da Relicário em divulgar a literatura latino-americana e resgatar autoras esquecidas, negligenciadas, mal lidas ou consideradas "malditas". Segundo Maíra Nassif Passos, à frente da editora independente, a obra de Somers se encaixa perfeitamente nesse movimento.

Em entrevista, Passos revelou ter descoberto o romance através de um texto no Suplemento Pernambuco. Após encontrar PDFs de edições em espanhol disponíveis online, ela se apaixonou pelo texto e viu nele o perfil das publicações da Relicário. A editora se dedica a resgatar autoras que tiveram um boom inicial e depois caíram no esquecimento, como é o caso de Armonía Somers, Sara Gallardo e, futuramente, Cassandra Rios.

A obra e sua recepção

Armonía Somers foi uma autora reclusa, que escreveu "A Mulher Nua" sob pseudônimo. O livro teve repercussão inicial, mas a autora não circulava muito na cena literária uruguaia. Sua obra foi recuperada anos depois, com novas edições. A autora era filha de pai anarquista e mãe católica, o que se reflete na subversão e na presença da religião em seus escritos.

A obra é classificada como feminista, abordando sexualidade, desejo e liberdade. A imagem de uma mulher que anda nua por um bosque aterrorizando uma comunidade é vista como um ato feminista. O romance possui uma linguagem surrealista e labiríntica, exigindo do leitor uma postura receptiva e desarmada, como a protagonista Rebeca Linke.

Diálogos com a atualidade

A relação dos homens com a protagonista em "A Mulher Nua" é interpretada como um reflexo da dificuldade masculina em lidar com o desejo e a subjetividade. A aparição de Rebeca causa fascínio e medo, levando a uma perseguição primitiva. Essa dinâmica dialoga diretamente com a atualidade, abordando a violência contra a mulher e o feminicídio, e a misoginia presente na sociedade.

O livro, embora não didático, mostra uma mulher se insurgindo contra os grilhões sociais, representando um horizonte de ruptura. A editora alerta que a obra não é uma leitura fácil, mas tem atraído um público seleto de leitores que apreciam a sofisticação da linguagem e a profundidade temática.

O papel das editoras independentes

Maíra Nassif Passos destaca que editoras independentes, como a Relicário, têm maior liberdade para assumir riscos e publicar livros com linguagens inovadoras que não necessariamente caem imediatamente no gosto do público. Ao contrário das grandes editoras, que precisam satisfazer investidores, as pequenas podem se dar ao luxo de escolher obras que merecem existir em português.

A editora tem uma forte presença de escritoras em seu catálogo, uma escolha política para valorizar a literatura feminina e trazê-la para o espaço público. A Relicário também tem sido pioneira na publicação de literatura latino-americana no Brasil, abrindo um nicho de mercado que tem sido explorado por outras editoras. Entre os próximos lançamentos estão a reedição de dois livros de Cassandra Rios e obras de autoras como Lucrecia Martel e Mariana Enriquez.

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