Rastreamento de câncer de pulmão: tomografia de baixa dose reduz mortalidade

Destaques
- •Tomografia computadorizada de baixa dose reduz a mortalidade por câncer de pulmão em pessoas de alto risco.
- •A evidência científica sobre o benefício do rastreamento é conclusiva e bem estabelecida.
- •Políticas públicas que articulem rastreamento organizado, controle de qualidade, cessação do tabagismo e acesso equitativo são cruciais para o sucesso da estratégia.
O diagnóstico de câncer de pulmão do papa Leão XIV, de 71 anos, reacendeu o debate sobre a doença, seus fatores de risco e as estratégias de diagnóstico e tratamento. Embora o tabagismo seja o principal fator de risco, o câncer de pulmão pode afetar também pessoas que nunca fumaram, devido a fatores como tabagismo passivo, poluição atmosférica, exposição a substâncias cancerígenas e ao gás radônio. A doença frequentemente é silenciosa em seus estágios iniciais, e o diagnóstico tardio contribui para que o câncer de pulmão seja a principal causa de morte por câncer no mundo, com cerca de 1,9 milhão de mortes em 2024, segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).
Rastreamento com tomografia de baixa dose reduz mortalidade
Uma avaliação internacional conduzida pela IARC, publicada no The New England Journal of Medicine, reuniu evidências para orientar políticas de rastreamento em pessoas assintomáticas. A principal conclusão é que o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD) reduz a mortalidade por câncer de pulmão entre indivíduos de alto risco, definidos como aqueles com idade entre 50 e 80 anos e histórico de tabagismo equivalente a 1 maço por dia por 20 anos ou mais. A força da evidência científica para esse benefício foi classificada como grupo A, indicando ser conclusiva e bem estabelecida.
Grandes ensaios clínicos corroboram esse achado. O National Lung Screening Trial (EUA) mostrou uma redução relativa de 16% na mortalidade por câncer de pulmão com TCBD em comparação com a radiografia de tórax. Já o estudo europeu NELSON registrou uma redução de 24% entre homens de alto risco após dez anos de acompanhamento. A maioria dos ensaios também identificou menor incidência de diagnósticos em estágios avançados, o que aumenta as chances de tratamento curativo, como cirurgia.
Em contrapartida, o rastreamento com radiografia de tórax não demonstrou de forma conclusiva redução da mortalidade. Portanto, a escolha do método de imagem é crucial para o benefício clínico.
Riscos e limitações do rastreamento
Apesar dos benefícios, o rastreamento não é isento de riscos. Resultados falso-positivos podem levar a exames adicionais e procedimentos invasivos desnecessários, como biópsias. O sobrediagnóstico, que ocorre quando tumores detectados provavelmente não ameaçariam a vida do paciente, é outra preocupação. A exposição repetida à radiação ionizante da tomografia também é um risco, embora os estudos apontem que os benefícios da TCBD superam os danos em grupos selecionados.
Essas limitações reforçam a necessidade de protocolos rigorosos para avaliação de nódulos, acompanhamento de alterações e definição de investigações invasivas. A qualidade dos exames e a organização do programa de rastreamento são tão importantes quanto a disponibilidade dos equipamentos.
Novas tecnologias e prevenção são essenciais
Novas tecnologias, como modelos de predição de risco e inteligência artificial (IA), podem aprimorar a seleção de indivíduos elegíveis e a interpretação dos exames. Ferramentas de IA podem auxiliar radiologistas na identificação e mensuração de nódulos, mas devem apoiar a avaliação clínica sem substituí-la, pois podem aumentar resultados falso-positivos.
Biomarcadores moleculares e outras tecnologias emergentes estão em investigação, mas sua incorporação à prática clínica depende de mais estudos. É fundamental ressaltar que o rastreamento não substitui a prevenção primária. O controle do tabagismo continua sendo essencial para reduzir a incidência da doença.
Programas eficazes de rastreamento devem integrar exames de imagem a estratégias de cessação do tabagismo, com apoio comportamental e tratamento farmacológico. A identificação e o convite a pessoas elegíveis, o acesso facilitado, a comunicação de resultados e a garantia de investigação diagnóstica e tratamento oportunos são componentes essenciais.
Políticas públicas para o futuro
A tomografia de baixa dose representa uma oportunidade concreta de reduzir mortes por câncer de pulmão em pessoas de alto risco. Para transformar essa evidência em benefício coletivo, são necessárias políticas públicas que articulem rastreamento organizado, controle de qualidade, cessação do tabagismo e acesso equitativo ao diagnóstico e tratamento. Lembretes, acompanhamento individualizado e estratégias de navegação de pacientes podem favorecer a participação, especialmente entre grupos historicamente menos atendidos.


