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Pesquisa da Unicamp aponta 'permacrise' informacional no Brasil durante a Covid-19

25 de outubro de 2026
Pesquisa da Unicamp aponta 'permacrise' informacional no Brasil durante a Covid-19

Destaques

  • •Pesquisa da Unicamp analisou o cenário informacional brasileiro durante a pandemia de Covid-19.
  • •O estudo identificou a 'permacrise', um estado de instabilidade persistente devido à articulação de diversas crises.
  • •A pesquisa destaca o papel das plataformas digitais na centralização e mediação da informação, com consequências para o direito à informação.

Uma pesquisa recém-publicada pela Unicamp, intitulada 'Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19', analisou os desafios da produção e consumo de informações no Brasil durante a pandemia de Covid-19. O estudo, conduzido por Érica Mariosa Moreira Carneiro, aponta que o período evidenciou um ambiente de disputa informacional, onde o acesso à informação estava condicionado por fatores como a capacidade de pagar por dados móveis e o fechamento de veículos de comunicação.

A pesquisa parte da complexidade do século 21, marcado pelo digital, e reconstrói o dia a dia da busca por informações em veículos de jornalismo e divulgação científica, formando uma linha do tempo informacional do primeiro ano da pandemia no Brasil. Esse processo revelou que, além da crise sanitária, diferentes crises emergiram, entrelaçaram-se e reforçaram-se mutuamente, produzindo um estado persistente de instabilidade, que a pesquisa denomina Permacrise. Este conceito busca compreender como essas crises se articulam e prolongam seus efeitos, exigindo um olhar atento às particularidades de cada contexto.

Condições de acesso à informação limitadas

Em 2021, a pesquisa aponta que 47% dos acessos à internet no país eram feitos por celulares com planos pré-pagos. Isso significava que, para uma parcela significativa da população, estar conectado dependia da capacidade de pagar pelos dados móveis. A busca por notícias e orientações estava, portanto, condicionada a essa disponibilidade, revelando os limites da conexão como resposta ao isolamento.

Além disso, o Brasil já enfrentava um apagão jornalístico, com o fechamento de 602 veículos de comunicação nos últimos 30 anos, sendo que 61 encerraram suas atividades apenas em 2020. Essa redução no número de veículos impacta diretamente a diversidade e a profundidade da cobertura noticiosa.

A subversão do modelo de comunicabilidade pelas plataformas digitais

A pesquisa também aborda a centralidade da lógica midiática, aprofundada pela pandemia. A ascensão das plataformas digitais prometeu uma comunicação em rede, em contraponto ao modelo unidirecional tradicional. No entanto, a pesquisa argumenta que essa promessa não significou o fim da centralização, mas sim um deslocamento de seus mecanismos, tornando menos visível quem organiza, seleciona e dá visibilidade à informação.

A chamada subversão do modelo de comunicabilidade descreve como a circulação da informação passa a ser fortemente mediada pelas plataformas digitais. Por meio de regras, critérios comerciais e sistemas algorítmicos, essas plataformas interferem no que ganha visibilidade e, consequentemente, no que é considerado relevante ou confiável. Essa mediação algorítmica pode amplificar desigualdades, reproduzir vieses e produzir efeitos discriminatórios, como já discutido por Nina da Hora.

Quando poucas empresas, sediadas fora do Brasil, concentram esse poder, decisões que afetam o ambiente informacional são tomadas longe dos espaços de debate público e das normas democráticas do país, ferindo o direito constitucional à informação.

Informação como política pública e defesa do ecossistema informacional

A pesquisa defende que tratar a qualidade do ambiente informacional como responsabilidade individual desresponsabiliza as empresas que o estruturam. Em uma democracia, o direito à informação depende das condições para que ela alcance as pessoas, possa ser confrontada com outras fontes e compreendida em seu contexto. A falta de políticas públicas para o setor de informação agrava o problema, levando à criação de 'desertos de notícias'.

Defender a informação pública e brasileira, segundo o estudo, não significa defender apenas os veículos tradicionais. Universidades, instituições científicas, divulgação científica, organizações da sociedade civil, projetos independentes e iniciativas comunitárias também contribuem para um ecossistema plural de produção de informação. A democracia depende das condições informacionais nas quais cada escolha é construída, e a comunicação deve ser compreendida como um direito da humanidade.

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