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Paraguai: Impeachment de Peña e posse de Alliana geram instabilidade

07 de novembro de 2026
Paraguai: Impeachment de Peña e posse de Alliana geram instabilidade

Destaques

  • •A rápida destituição do presidente Santiago Peña e a posse de Pedro Alliana no Paraguai aprofundam a crise de confiança no país, segundo especialistas.
  • •O escândalo envolve o Ueno Bank, que recebia fundos públicos e os repassava a grupos proprietários, com falhas de regulação e demora do Banco Central paraguaio.
  • •O novo presidente, Pedro Alliana, prometeu cortar gastos públicos e ressarcir poupadores do Ueno Bank, enquanto manifestantes celebram a saída de Peña, mas cobram recuperação de valores.

A liberação do processo de impeachment do presidente Santiago Peña e a consequente posse de Pedro Alliana como novo chefe do executivo paraguaio geram mais instabilidade do que normalização da crise no país. A avaliação é de Flávia Loss de Araujo, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, que considera a velocidade dos acontecimentos, vista sob a perspectiva brasileira, excessiva. "Esse impeachment tão rápido, esse pedido de prisão tão rápido, também não passam confiança", afirmou, classificando o momento como uma profunda crise de confiança no Paraguai.

Segundo Flávia, a crise no Paraguai tem natureza tanto econômica quanto política. "Trata-se de uma crise econômica, porque envolve um dos maiores bancos do Paraguai, mas também política, principalmente política, porque atingiu o chefe do executivo, Santiago Peña", afirmou a especialista. Ela explicou que Peña era, até o ano passado, sócio de um dos grupos proprietários do Ueno Bank.

Escândalo envolve uso de fundos públicos

As autoridades paraguaias investigam a extensão das ligações de Santiago Peña com a instituição financeira. De acordo com Flávia Loss de Araujo, o ponto central do escândalo é que o banco recebia fundos públicos e os repassava aos grupos proprietários e às empresas que o comandavam. A professora também destacou que houve falhas nas agências de regulação e que o Banco Central paraguaio demorou a tomar providências. "Permitiu-se que tudo isso acontecesse", disse ela, ressaltando que a crise é severa para um sistema político que já é considerado mais frágil na América do Sul.

Impeachment acelerado levanta dúvidas sobre transparência

Flávia Loss de Araujo chamou atenção para a velocidade com que o processo de impeachment foi conduzido no Paraguai. Ela lembrou que a Constituição paraguaia permite que esse tipo de procedimento ocorra de forma extremamente rápida, sem um limite de tempo definido, diferentemente do que ocorre no Brasil. Como exemplo, citou o caso do ex-presidente Fernando Lugo, que em 2012 sofreu impeachment "no meio da madrugada, de um dia para o outro". No caso de Santiago Peña, o processo levou ao menos dois dias. "Na minha análise, não é o ideal também essa rapidez. Ela não passa a transparência necessária", avaliou a especialista.

Para a professora, embora a intenção seja retomar a normalidade, a celeridade do processo produz efeito contrário. "Ao mesmo tempo que isso cria uma celeridade para que tenha uma normalidade no sistema político paraguaio, em contrapartida, cria uma instabilidade também, porque você tem um processo muito rápido e que não dá as respostas para a população", explicou. Ela acrescentou que a estabilidade dependerá também do mercado financeiro e da capacidade do banco de descongelar recursos e devolvê-los a pessoas e empresas, com autorização do Banco Central paraguaio.

Pedido de prisão agrava crise de confiança

Questionada sobre o pedido de prisão de Santiago Peña e seus possíveis impactos, Flávia Loss de Araujo classificou a situação como "seríssima", mas ponderou que tudo depende do andamento das investigações. Ela destacou a forte pressão da oposição, que foi uma das denunciantes do escândalo, para que os desdobramentos ocorram com rapidez.

O novo presidente do Paraguai, Pedro Alliana, assumiu o comando do Executivo com a promessa de cortar gastos públicos e compensar os poupadores lesados pela crise financeira do Ueno Bank, maior banco digital do país, liquidado pelo Banco Central paraguaio. Em seu discurso, Alliana anunciou que enviará um projeto de racionalização do gasto público e prometeu compensar integralmente os poupadores prejudicados, com prioridade para os de menor renda. "Ordeno que se tomem ações imediatas para ressarcir os poupadores, com preferência pelos menos favorecidos. Não quero nenhum morno à frente dessa missão; quero resultados", declarou.

As medidas de ressarcimento já estão em andamento, com o Banco Central do Paraguai priorizando clientes com até 10 milhões de guaranis depositados (cerca de R$ 9.000), que não possuíam dívidas com o Ueno Bank e mantinham conta em outro banco. O Paraguai conta com o FGD (Fondo de Garantía de Depósitos), que cobre até 75 salários mínimos paraguaios por pessoa e instituição financeira, o equivalente a aproximadamente R$ 200 mil.

Alliana também declarou como prioridades as pessoas sem emprego, os doentes em espera por atendimento médico e os idosos. Ele exigiu desempenho de seu ministério e dos demais funcionários do Estado, determinando que viagens ao exterior só sejam realizadas por razões inadiáveis. A melhoria dos serviços públicos de saúde também foi indicada como meta central do novo governo.

Milhares de paraguaios foram às ruas de Assunção para comemorar a destituição do presidente Santiago Peña. A decisão foi tomada pelo Senado, após dias de protestos provocados pela quebra do Ueno Bank, que resultou no bloqueio de contas e receio de perdas de recursos previdenciários. O Senado aprovou o impeachment com votos favoráveis de todos os congressistas presentes. Peña é acusado de envolvimento em irregularidades relacionadas ao Ueno Bank, e até 2025 foi acionista do grupo que o controlava. Com a destituição, Pedro Alliana assumiu o comando. Apesar das comemorações, manifestantes continuam cobrando a recuperação dos valores bloqueados no Ueno Bank.

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