André Singer: Democracia corre risco com extrema-direita violenta, diz cientista político

Destaques
- •Cientista político André Singer avalia que a vitória de Lula foi impulsionada por medidas que impactaram o bolso da população e pela mudança de postura do governo.
- •Singer aponta que a extrema-direita, apesar de ter avançado globalmente, não oferece soluções para as desigualdades agravadas pela crise financeira de 2008.
- •O especialista sugere que o quarto mandato de Lula deve focar em alívio socioeconômico imediato e progresso futuro, equilibrando demandas populares e pressões do mercado.
O cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), analisou a recente vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atribuindo-a em grande parte a uma mudança de postura do governo e à adoção de medidas com impacto direto no cotidiano da população. Segundo Singer, ações como o diálogo com as necessidades reais do eleitorado e a criação de iniciativas que aliviaram o bolso foram cruciais para a virada entre o primeiro e o segundo turno das eleições.
Apesar da vitória no Brasil e de derrotas da direita em outros países, como a de Donald Trump nos Estados Unidos, Singer alerta que a democracia ainda enfrenta riscos significativos. "Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", afirmou em entrevista à BBC News Brasil. Ele relaciona o avanço dessa direita radical ao agravamento das desigualdades sociais, intensificadas pela crise financeira de 2008, a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro", pontuou, explicando que, sem encontrar soluções, a extrema-direita atrai parte dessa população frustrada.
Fatores da Virada Eleitoral
Singer detalha que a reversão do quadro eleitoral entre os turnos foi impulsionada por três fatores principais. O primeiro foi a mudança de estratégia da campanha de Lula, marcada pelo reconhecimento de problemas como o alto preço dos alimentos e a adoção de medidas pragmáticas. A proibição das apostas esportivas (bets) é citada como um exemplo emblemático, atuando em conjunto com o aumento do custo de vida e a crise de endividamento das famílias.
Outras medidas mencionadas incluem o pacote para microempreendedores individuais (MEIs), o programa Desenrola 3, o reajuste do Bolsa Família e a aprovação do fim da jornada 6x1, além da proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. "Nós tivemos um pacote que, na minha opinião, mudou o caráter do governo", avaliou Singer.
O segundo fator foi uma "explosão social" no segundo turno, com forte mobilização juvenil, comparável aos movimentos de 2013. Essas manifestações, segundo Singer, tiveram um conteúdo popular e foram impulsionadas tanto pela reeleição de Lula quanto pelo repúdio à extrema-direita. O terceiro elemento foi a "operação digital", liderada pelo "Exército do Janones", que capilarizou o movimento por todo o país, gerando um movimento nacional de grande significado.
Ameaças à Democracia e o Futuro do Governo
O cientista político reitera que a extrema-direita, embora tenha avançado, não tem apresentado soluções eficazes para os problemas sociais e econômicos. "A boa notícia que eu posso dar para quem é favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não está encontrando solução para essas pessoas", disse.
A derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA e a vitória de Lula no Brasil criam um cenário mais equilibrado nas Américas, oferecendo um "espaço de esperança", mas a ameaça da extrema-direita persiste. Singer também comentou a saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, considerando-a um erro tático que o deslegitima como líder político no Brasil.
Para o futuro, Singer aponta que o quarto mandato de Lula terá o desafio de "equacionar os problemas socioeconômicos de modo a produzir um alívio imediato em amplos setores populares e, ao mesmo tempo, abrir horizontes de progresso futuro". Ele ressalta a necessidade de enfrentar pressões por ajuste fiscal que poderiam desindexar benefícios previdenciários e retirar pisos da Constituição para educação e saúde, prometendo Lula preservar os direitos sociais.
A ascensão da extrema-direita no Congresso é vista como um obstáculo, mas Singer acredita que a falta de maioria para essas bancadas exigirá negociação. Ele também discute a importância do agronegócio, um setor prioritário e dinâmico, mas que se alinhou à extrema-direita, representando um "tremendo problema para o Brasil". A busca por uma "direita democrática", em contraste com a extrema-direita, é vista como essencial para o isolamento desta última e a preservação da democracia, que, por sua vez, só sobreviverá se for capaz de atender às necessidades da maioria da população.



