Panamá transfere presos de alto risco para ilha paradisíaca e gera controvérsia

Destaques
- •O arquipélago de Coiba, Patrimônio Mundial da Unesco e reserva natural, agora abriga 32 presos considerados de alto risco.
- •A medida, justificada pelo governo como necessária para a segurança nacional, preocupa ambientalistas e cientistas sobre o impacto nos ecossistemas intocados.
- •Acompanhar as repercussões ambientais e legais da presença de detentos em uma área de conservação.
O arquipélago de Coiba, um paraíso natural isolado no Pacífico panamenho e Patrimônio Mundial da Unesco, que serviu como uma temida prisão a céu aberto por 85 anos, tornou-se o centro de uma controvérsia após o governo transferir 32 presos considerados de alto risco para uma base aeronaval na ilha. A decisão, anunciada em junho e ampliada em agosto, visa, segundo o presidente José Raúl Mulino, desferir um golpe contra as estruturas criminosas dentro do sistema prisional e garantir a segurança nacional.
Coiba, que abrange 270.125 hectares entre área terrestre e marinha, é o maior parque marinho da América Central e um laboratório a céu aberto com ecossistemas e biodiversidade quase intocados pela intervenção humana durante o período em que funcionou como colônia penal. A ilha, fundada em 1919, registrou tortura, trabalhos forçados e massacres, sendo fechada em 2004 para se tornar uma reserva natural. A transferência de presos, no entanto, gerou preocupação entre cientistas e líderes ambientais, que argumentam que a lei que protege a reserva não contempla a presença de detentos e que o território deve ser usado exclusivamente para administração do parque, pesquisa científica e ecoturismo.
Histórico de violência e preservação ambiental
Durante décadas, Coiba funcionou como uma prisão onde criminosos perigosos e opositores políticos foram detidos. Relatos de ex-prisioneiros descrevem trabalho excessivo, espancamentos brutais, alimentação insuficiente e falta de assistência médica. A própria ilha, devido ao seu isolamento e às condições naturais, também foi palco de mortes por punições severas e pela presença de animais venenosos. Um dos eventos mais violentos foi um conflito entre grupos rivais em 1998, que resultou em decapitações, contribuindo para a aceleração do seu fechamento em 2004.
Paradoxalmente, o período em que Coiba foi uma prisão ajudou a preservar seus ecossistemas. A intervenção humana limitada manteve a ilha como um gigantesco laboratório a céu aberto, com espécies endêmicas e refúgios para animais raros. Cientistas veem Coiba como uma oportunidade única para estudar ecossistemas intocados e entender a recuperação de áreas alteradas, chamando-a de "Parque Jurássico moderno" e "berçário natural" que regenera a vida marinha.
Controvérsia e próximos passos
A transferência de 29 presos em junho, após uma fuga em massa em outra prisão, e de mais três em agosto, incluindo o ex-prefeito de Colón, Carlos Lee, foi justificada pelo governo como uma medida de segurança nacional. No entanto, organizações como o Centro de Defesa Ambiental do Panamá expressaram preocupação, pois a legislação da reserva não prevê a presença de detentos. O Ministério do Meio Ambiente alega que não há impacto ambiental, pois não foi necessário construir novas infraestruturas.
Familiares dos presos realizaram protestos, exigindo acesso para ver e se comunicar com seus entes queridos, algo garantido pelo devido processo legal. A reportagem da BBC Mundo tentou obter informações sobre a permanência dos presos e o acesso à área, mas não obteve resposta. A esperança de muitos, incluindo ex-detentos que se tornaram guardas-parques e colaboradores de pesquisas científicas, é que Coiba continue sendo um santuário natural preservado para futuras gerações, e não um local de detenção.



