Orson Welles: A lenda da 'Guerra dos Mundos' e o pânico radiofônico

Destaques
- •A transmissão radiofônica de 'A Guerra dos Mundos' em 1938 é frequentemente citada como causa de histeria coletiva, mas pesquisas recentes questionam a magnitude do pânico.
- •Estudos de audiência da época e análises posteriores indicam que a maioria das pessoas não ouviu a transmissão ou a compreendeu como ficção.
- •O mito do pânico generalizado foi amplificado pela imprensa, que buscava explorar o poder do rádio e os riscos de notícias não verificadas.
Na noite de 30 de outubro de 1938, véspera de Halloween, a rede CBS nos Estados Unidos transmitiu uma adaptação radiofônica do romance A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, dirigida por Orson Welles. A peça, apresentada como uma cobertura jornalística ao vivo de uma invasão marciana em Nova Jersey, tornou-se lendária por supostamente ter causado histeria coletiva e pânico generalizado entre os ouvintes.
No entanto, pesquisas históricas recentes, baseadas em cartas enviadas a Welles e dados de audiência da época, sugerem uma versão bem menos dramática do episódio. O escritor e pesquisador A. Brad Schwartz, autor do livro “Broadcast Hysteria”, analisou centenas de correspondências e concluiu que a equipe do Mercury Theatre não esperava enganar ninguém, considerando a história improvável demais. Detalhes como o início lento e o adiamento do intervalo foram escolhas para dar realismo à trama, e não para induzir ao pânico.
O que os dados de audiência revelam
Pesquisadores de mídia como Jefferson Pooley e Michael J. Socolow resgataram dados de audiência que indicam que, na noite da transmissão, apenas 2% dos domicílios pesquisados pelo instituto C.E. Hooper estavam ouvindo a peça de Welles. A atração competia com o popular programa do ventríloquo Edgar Bergen, e algumas afiliadas importantes da CBS nem chegaram a transmitir o programa. Frank Stanton, executivo da CBS, lembrou posteriormente que “a maioria das pessoas não ouviu”, e quem ouviu, segundo ele, entendeu como uma pegadinha.
A ideia de uma crise parecia estar realmente acontecendo, como relatou o próprio Orson Welles em depoimento judicial em 1960, mas a intenção era criar uma experiência imersiva, não um engano em massa.
Desmistificando os relatos de pânico
Os relatos de debandadas, suicídios e hospitais lotados não resistem à checagem histórica. Nenhum jornal da época noticiou suicídio comprovado ligado ao programa. Pesquisas posteriores em hospitais de Nova York não encontraram atendimentos atribuídos à transmissão. Uma ouvinte processou a CBS em 50 mil dólares por abalo nervoso, mas a ação foi arquivada rapidamente. Para Pooley e Socolow, “quase ninguém foi enganado pela transmissão de Welles”. As ligações preocupadas para delegacias e emissoras foram suficientes para convencer jornalistas de que algo grande acontecia.
O papel da imprensa na construção do mito
A imprensa da época desempenhou um papel crucial na amplificação do episódio. Jornais publicaram editoriais como “Terror pelo rádio” e alertaram para os riscos de notícias incompletas. Um crítico de rádio de um tabloide nova-iorquino, Ben Gross, recordou que as ruas de Manhattan estavam vazias enquanto seu jornal estampava o pânico na capa. W. Joseph Campbell, autor de “Getting It Wrong”, analisou que, se a histeria fosse real, os jornais teriam acompanhado o caso por semanas, o que não ocorreu.
Um estudo acadêmico de 1940, “The Invasion from Mars”, do psicólogo Hadley Cantril, estimou que cerca de 1 milhão de pessoas ficaram assustadas. Contudo, Pooley e Socolow apontam confusões de categoria no estudo, que tratou ouvintes empolgados ou assustados como em pânico, e que a audiência medida era superior a qualquer outra conhecida na época. O livro de Cantril permanece como a principal, e talvez única, fonte com respaldo acadêmico a sustentar a tese de um grande pânico.

