ONU: Financiamento para adaptação climática é 30% do necessário

Destaques
- •Relatório da ONU aponta que financiamento internacional para adaptação climática cobre apenas cerca de 30% das necessidades globais.
- •Necessidade anual estimada em US$ 420 bilhões (R$ 2,31 trilhões) até 2035, enquanto o aporte atual é de US$ 31 bilhões.
- •COP31, na Turquia, busca avanços concretos para reduzir a lacuna de financiamento, mas cenário é incerto.
O financiamento internacional destinado à adaptação às mudanças climáticas está muito aquém do necessário para proteger os países mais vulneráveis, conforme aponta o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação (Adaptation Gap Report) da ONU, publicado nesta quarta-feira (04/11). Mesmo no cenário mais otimista, apenas cerca de 30% das necessidades atuais seriam atendidas, segundo a edição de 2026 do documento.
Entre 2023 e 2024, o financiamento público global para adaptação nos países em desenvolvimento aumentou em cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões), totalizando entre US$ 28 bilhões e US$ 31 bilhões (entre R$ 154 bilhões e R$ 170,5 bilhões) em 2024. No entanto, este valor é significativamente inferior aos US$ 305 bilhões anuais (R$ 1,68 trilhão) estimados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como necessários até 2035.
Necessidades financeiras e realidade atual
A análise, que considerou as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e os planos nacionais de adaptação de 155 países, indica uma necessidade anual entre US$ 255 bilhões e US$ 328 bilhões (entre R$ 1,4 trilhão e R$ 1,8 trilhão) na próxima década. Projeções baseadas em modelos computacionais, corrigidas pela inflação, elevam esse montante para US$ 420 bilhões por ano (R$ 2,31 trilhões), podendo dobrar se incluídas as necessidades do setor privado.
A COP31, que ocorre entre 9 e 20 de novembro na Turquia, tem o desafio de produzir avanços concretos para reduzir essa lacuna. A edição anterior, COP30 no Brasil, foi apresentada como a “COP da adaptação”, mas deixou uma sensação de oportunidade perdida, especialmente em relação ao financiamento.
Controvérsia sobre o financiamento acordado
O acordo firmado na COP30 em Belém prevê a “triplicação” dos recursos destinados à adaptação, mas o texto final não especifica um valor concreto, gerando controvérsia. Países menos desenvolvidos e instituições como o World Resources Institute contestam a interpretação mais conservadora, que baseia a triplicação nos US$ 20 bilhões anuais (R$ 110 bilhões) previstos em 2019, resultando em US$ 60 bilhões (R$ 330 bilhões). Eles defendem que a base deveria ser o Pacto Climático de Glasgow (2021), que já previa a duplicação para US$ 40 bilhões (R$ 220 bilhões) em 2025, elevando a meta de triplicação para US$ 120 bilhões (R$ 660 bilhões).
Mesmo este último valor, segundo a ONU, representaria apenas cerca de 30% dos US$ 420 bilhões anuais considerados necessários. A adaptação continua sendo o “parente pobre” do financiamento climático, com fundos como o Fundo de Adaptação tendo desembolsado apenas US$ 1,6 bilhão (R$ 8,8 bilhões) desde 2010.
Impactos e dependência de empréstimos
Os custos acumulados por eventos climáticos extremos já desafiam economias desenvolvidas, como as perdas de até € 10 bilhões (R$ 63 bilhões) na agricultura francesa após um verão de calor extremo e seca. Em países insulares do Caribe, os impactos podem ser devastadores, com infraestruturas destruídas em uma noite.
O Nepal, apesar de emissões insignificantes, é um dos mais expostos, como demonstrou o colapso de uma geleira que deixou milhares de mortos e prejuízos de até US$ 5 bilhões (R$ 27,5 bilhões). O país apelou por mais financiamento para adaptação.
O financiamento privado, segundo a Oxfam, concentra-se em projetos rentáveis e não cobre as necessidades mais urgentes de adaptação, saúde e prevenção de desastres. O relatório da ONU estima que ele cobriria apenas 15% a 20% das necessidades totais. Grande parte dos recursos disponibilizados aos países em desenvolvimento ainda chega na forma de empréstimos, embora em 2024 cerca de 90% do apoio aos países menos desenvolvidos tenha sido em doações ou empréstimos altamente concessionais.



