Novo índice de pobreza rural na Amazônia corrige distorções de métricas urbanas

Destaques
- •Pesquisadores criam o IPM-Trajetórias para avaliar a pobreza em áreas rurais da Amazônia, adaptando métricas à realidade local.
- •O novo índice revela que a pobreza rural na região atingia 27% da população em 2010, quatro vezes mais que a urbana.
- •A ferramenta busca direcionar políticas públicas mais adequadas às especificidades do território amazônico e fortalecer economias sustentáveis.
Uma equipe de pesquisadores, liderada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolveu o Índice de Pobreza Multidimensional Trajetórias (IPM-Trajetórias) para corrigir a superestimação da pobreza em populações rurais da Amazônia. O estudo, publicado na revista Nova Economia, aponta que métricas convencionais, pensadas para a vida urbana, distorcem a realidade do campo, classificando o modo de vida rural como escassez.
O modelo IPM-Trajetórias combina indicadores de saúde, educação e condições de vida dos censos de 2000 e 2010, mas com critérios distintos para áreas urbanas e rurais. A posse da terra, por exemplo, é um critério específico para o campo, enquanto a presença de rádio e a disponibilidade de carro ou motocicleta têm pesos diferentes em cada contexto. Essa abordagem visa captar de forma mais precisa a realidade socioeconômica das comunidades rurais amazônicas.
Pobreza rural na Amazônia: dados e comparações
O novo indicador revelou que, em 2010, a pobreza na zona rural da Amazônia afetava 27% da população, uma taxa aproximadamente quatro vezes maior que a registrada no meio urbano (7%). Entre 2000 e 2010, o índice de pobreza multidimensional caiu significativamente, cerca de 79% no meio rural e 94% no urbano. No entanto, os autores alertam que os dados desses dois anos não são diretamente comparáveis devido a mudanças nas variáveis do Censo.
A aplicação de métricas urbanas, como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tende a camuflar a realidade de quem vive no bioma amazônico. Segundo os autores, essa abordagem contribuiu para a narrativa de pobreza persistente na região, associada a um suposto atraso econômico rural.
Impacto das métricas na formulação de políticas públicas
O descompasso estatístico pode ter sérias consequências na formulação de políticas públicas. Ricardo Bruno Nascimento dos Santos, um dos autores do artigo, explica que, quando o Estado se baseia em índices engessados, a ausência de estrutura urbana na floresta é interpretada como miséria. Isso pode levar a ações prejudiciais, como o incentivo à conversão de áreas verdes em pastagens, reforçando a ideia de que onde há muita floresta, há muita pobreza.
A adoção do IPM-Trajetórias permite que o poder público reconheça as especificidades do território amazônico. Com isso, é possível direcionar incentivos econômicos e políticas para trajetórias tecno-produtivas sustentáveis. Em vez de incentivar a pecuária extensiva por desconhecimento do valor da floresta em pé, o financiamento público pode fortalecer quem produz e mantém o bioma intacto, segundo Santos.
Recomendações para o desenvolvimento sustentável na Amazônia
Para superar a pobreza de forma duradoura na Amazônia, os autores defendem uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo que integre políticas industriais, agrícolas, ambientais, de infraestrutura e regionais. É fundamental o investimento produtivo, a diversificação das economias locais e a preservação da floresta.
Santos ressalta a importância de ações governamentais com tecnologias sociais planejadas para o interior amazônico, lideradas e mantidas pelos próprios moradores. O fortalecimento de economias baseadas no manejo comunitário e em sistemas agroflorestais é visto como um caminho essencial para reduzir a desigualdade e proteger a floresta, garantindo que o desenvolvimento seja inclusivo e sustentável.
Matérias originais
- Medir pobreza rural amazônica com régua urbana infla índice em 17% · super.abril.com.br



