Negacionismo climático cresce no Brasil apesar de eventos extremos

Destaques
- •Pesquisa Ipsos revela aumento de brasileiros que veem eventos climáticos como 'fenômeno natural', em contramão a dados de desastres e ondas de calor.
- •Especialistas apontam polarização política e influência de discursos negacionistas, inclusive em parlamentares eleitos, como fatores que distorcem a percepção pública.
- •Mudança de cenário depende de ações concretas e comunicação eficaz de iniciativas de sucesso para que a pauta climática saia da esfera ideológica e ganhe o cotidiano.
Apesar de eventos climáticos extremos ganharem destaque no Brasil, a percepção de que são resultado de mudanças climáticas não é um consenso. Uma pesquisa Ipsos Rep360º indica que 25% dos brasileiros não acreditam na urgência da crise climática, um aumento de quatro pontos percentuais em relação ao ano anterior. Em contrapartida, o percentual de pessoas que afirmavam acreditar na crise climática diminuiu de 60% para 55% em 2026.
Esses dados contrastam com a ocorrência de desastres naturais e fenômenos extremos no país. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, classificadas como o maior desastre natural da história do estado, afetaram 2,4 milhões de pessoas e causaram prejuízos bilionários, com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) apontando a crescente influência das mudanças climáticas. Em 2025, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou sete ondas de calor, com temperaturas recordes em diversas cidades, como Quaraí (RS) a 43,8°C e São Paulo a 37,2°C em dezembro, a maior para o mês em 64 anos.
Crescimento do negacionismo e seus fatores
Especialistas ouvidos pelo Estadão atribuem o aumento da descrença a uma combinação de fatores. A popularização da pauta climática na mídia e redes sociais expõe opiniões negacionistas, influenciando a percepção pública. O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, explica que o tema, antes restrito a setores específicos, agora atinge mais pessoas, incluindo aqueles que negam a crise climática.
A polarização política e a associação de pautas de sustentabilidade à esquerda, além da pressão geopolítica anti-ESG fortalecida internacionalmente, também contribuem para o cenário. Astrini aponta um aumento no número de parlamentares eleitos para 2027 com discursos negacionistas, o que pode enfraquecer a agenda de mitigação climática.
Disputas narrativas e desafios econômicos
O CEO da Climate Ventures, Ricardo Gravina, destaca que o tema climático entrou em disputas políticas globais e nacionais, com informações falsas e narrativas enviesadas se disseminando rapidamente via celular. Ele também ressalta o fator financeiro, onde desigualdades econômicas fazem com que a população de baixa renda priorize questões mais imediatas, como o pagamento de contas, em detrimento da pauta climática.
Gravina sugere que profissionais da área precisam comunicar melhor o tema, focando em preocupações mais próximas da realidade das pessoas, como a conta de luz com energia solar ou a geração de renda com a floresta em pé na Amazônia. A falta de comunicação eficaz sobre iniciativas bem-sucedidas impede que a pauta saia da esfera ideológica e se integre ao cotidiano.
Diferenças geracionais e regionais na percepção
A pesquisa Ipsos também revela diferenças na percepção climática entre faixas etárias e regiões. Jovens de 18 a 24 anos demonstram maior reconhecimento da urgência climática (apenas 20% não acreditam), enquanto pessoas com 45 anos ou mais apresentam maior ceticismo (27%). Paulo Simonetti, do Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), atribui isso ao acesso a materiais educativos mais qualificados e à discussão do tema desde cedo nas gerações mais novas.
Regionalmente, o Norte do Brasil registra a maior concordância com a ideia de fenômeno natural (31%), seguido pelo Centro-Oeste (29%). Simonetti aponta que o imaginário amazônico, historicamente associado à oposição entre floresta e desenvolvimento, pode influenciar essa percepção, embora seja possível conciliar conservação e geração de renda.
Próximos passos para mudar o cenário
Para Ricardo Gravina, a mudança de percepção pública sobre o clima no Brasil depende de ações concretas e da comunicação efetiva dessas iniciativas. Ele acredita que vivenciar tragédias climáticas ou ver a transição energética e soluções sustentáveis aplicadas localmente pode gerar comoção e engajamento. A divulgação de empreendedores brasileiros que resolvem problemas climáticos e geram lucro é vista como um caminho para tirar o assunto da briga ideológica e inseri-lo no dia a dia da população.



