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Museu Nacional recebe indumentária de Mãe Bernadete, líder quilombola assassinada

01 de novembro de 2026
Museu Nacional recebe indumentária de Mãe Bernadete, líder quilombola assassinada

Destaques

  • •O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, incorporou ao seu acervo uma indumentária de Mãe Bernadete, líder quilombola assassinada em 2023.
  • •A peça, um vestido branco com detalhes em azul, foi doada pelo filho da ialorixá, Jurandy Pacífico dos Santos, e representa ancestralidade e luta por direitos humanos.
  • •A doação visa preservar a memória quilombola e fortalecer a cultura afro-brasileira, ampliando a representação dessas histórias em um importante espaço cultural.

O Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, integrou ao seu acervo uma indumentária de uso pessoal da ialorixá Mãe Bernadete, líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, assassinada em agosto de 2023. A doação, um vestido branco com detalhes em azul, foi realizada por seu filho, o professor Jurandy Pacífico dos Santos, durante a 3ª edição do evento Diálogos da Reconstrução, promovido pela instituição com o tema Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas.

A iniciativa, segundo o Museu Nacional, integra a proposta de reconhecer e preservar as memórias, os saberes e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos, ampliando as possibilidades de representação dessas histórias na instituição. O professor Jurandy Pacífico dos Santos relatou que foi consultado por representantes do museu e concordou em doar a peça, que para ele transcende o valor de um objeto. "Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território", afirmou.

Um símbolo de ancestralidade e resistência

Para Jurandy Pacífico dos Santos, a indumentária de sua mãe representa mais do que uma vestimenta; é um elo com a ancestralidade e um testemunho da dedicação de Mãe Bernadete à defesa dos direitos humanos, dos quilombos e do território. Ele destacou que a peça é fundamental para manter viva a memória da líder comunitária. O gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares ressaltou que a presença da indumentária no Museu Nacional fortalece a cultura afro-brasileira e a memória de um povo historicamente marginalizado e não reconhecido pelo sistema.

"Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo", declarou. Em texto encaminhado à Agência Brasil, Jurandy explicou que a doação significa levar a história, os conhecimentos ancestrais e a identidade quilombola para um dos mais importantes espaços de preservação científica, histórica e cultural do Brasil, contribuindo para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes conheçam a trajetória de Mãe Bernadete e a história de resistência dos povos quilombolas.

O assassinato e a luta por justiça

Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023, no Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Bahia. Os criminosos invadiram sua casa e efetuaram 25 disparos, a maioria no rosto da líder. A promotoria apontou como motivo a atuação de Mãe Bernadete contra a expansão do tráfico de drogas na comunidade. Ela estava sob programa de proteção desde 2017, ano em que seu filho, Binho do Quilombo, também foi assassinado.

Recentemente, o quarto acusado de participar do assassinato de Mãe Bernadete foi condenado a 23 anos de prisão, em um processo que busca justiça para a líder quilombola. A busca por memória e justiça tem marcado os últimos anos desde sua morte, com a comunidade e familiares buscando manter seu legado vivo.

Diálogos da Reconstrução e o futuro do acervo

A 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, evento que sediou a doação, é uma iniciativa do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Projeto Museu Nacional Vive, a Unesco, a UFRJ e o Instituto Cultural Vale. O objetivo do encontro é promover o diálogo com lideranças quilombolas sobre a preservação da memória, a produção cultural e a transmissão de conhecimentos, visando a construção de um museu plural e democrático.

A diretora de Integração Museu e Sociedade do museu, Thais Mayumi Pinheiro, enfatizou a importância de ouvir as lideranças quilombolas para entender como elas desejam se ver representadas no Museu Nacional. O gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, Caio Gonçalves Dias, complementou que o papel do museu é criar condições para que saberes tradicionais sejam reconhecidos e apresentados conforme as próprias comunidades entendem que devem ser.

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